Quando o primeiro homem de uma tribo pré-histórica venceu uma luta, dominou seu adversário e o obrigou a executar tarefas no seu lugar, estabeleceu-se a gênese de uma relação dialética que perdura até hoje: o que manda versus o que obedece.
Nos séculos seguintes, essa relação intensificou-se e alcançou picos com o advento do sistema feudal e, mais tarde, com o escravagismo moderno. No decorrer dessa evolução (?), o mercantilismo desenvolveu-se e deu espaço para que um grupo de burguesinhos (literalmente) desenvolvesse uma técnica peculiar que permitiu empregar a força braçal de outras pessoas em proveito próprio sem forçá-las a isso. Os teóricos do capitalismo chamaram-no de sistema fabril. E mesmo sofrendo severas críticas de um cara que nem empregado era, um tal Marx, esse sistema sobreviveu a revoluções e ditaduras - que incitavam a nostalgia ao velho sistema, agora chamando o senhor feudal de governo - e ainda infiltrou sua metodologia de graus hierárquicos na esfera da administração das tais repúblicas.
Nos tempos contemporâneos, contextualizando esse paradigma, podemos notar que se conserva toda a estrutura anterior em diferentes graus: no campo, o trabalho escravo ainda ''gera empregos'' e a vassalagem é a reforma agrária dos latifúndios. Enquanto isso, na cidade, homens, mulheres, velhos e crianças se aperfeiçoam nas linhas de produção das empresas e servidores passam o dia carimbando documentos burocráticos nas repartições públicas supervisionadas. Parecem pertencer a universos diferentes, mas conservam no cerne da sua estrutura aquela mesma relação dialética pré-histórica: o que obedece versus o que manda.
Muitos teóricos tentaram definir os conceitos de chefia, poder e liderança no estudo organizacional do comportamento de grupos, quase todos pensaram tê-los definido, e ainda não há nada definitivamente certo. O interessante é que ninguém nunca se pendurou no estudo do lado fraco da corda: o que é ser chefiado, liderado e pau-mandado?
Há que se reconhecer que nos ambientes de trabalho atuais poucos são liderados, muitos são chefiados e alguns ainda aceitam ser paus-mandados. E, dentre eles, quatro tipos podem ser facilmente reconhecidos (chamaremos os trabalhadores alusivamente de peões, apenas para generalizar a espécie). 1-Peão admirador: aquele que reconhece o poder de referência do mandador e é seduzido por suas características pessoais. Costuma suspirar: ''Eu queria ser assim''. 2- Peão observador: aquele que percebe e valoriza as habilidades e conhecimentos do superior. Costuma espalhar: ''O cara certo no cargo certo''. 3- Peão coagido: teme o controle sobre punições que o mandão possui ou parece possuir. Costuma ficar quieto. 4-Peão coautor: visa as recompensas que o chefinho pode lhe ofertar e se submete a tudo para consegui-las. Costuma se dar mal.
Os traços que definem e elencam esses indivíduos podem ser notados de qualquer ângulo, porém, é preciso cuidado ao estereotipá-los, pois pode haver tanto um líder em potencial quanto um alcaguete exponencial entre eles. Para finalizar, segue um esquema que pode ajudar qualquer trabalhador (assalariado, concursado, vassalo ou escravo) a verificar se é integrante do quadro de chefiados ou liderados em qualquer tipo de profissão. Liderados: 1- É orientado; 2- Sente-se integrado; 3- Realiza tarefas; 4- Participa do planejamento; 5- Alterna os descansos; 6- É incentivado; 7- Quer apertar a mão do cara. Chefiados: 1- É mandado; 2- Sente-se subordinado; 3- Acata ordens; 4- Nem sabe das reuniões; 5- Acumula funções; 6- É fiscalizado; 7- Quer apertar o pescoço do cara.

MÁRIO GONÇALVES DIAS JUNIOR é estudante de Geografia na Universidade Estadual de Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 li­nhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas).
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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