ESPAÇO ABERTO - O rememorável despertar
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de dezembro de 2003
Jonathan Menezes 
Um dia desses, quando lia a Folha de Londrina, vi um artigo de um jornalista que, em uma dessas frases de efeito, afirmou que o ''despertar'' da humanidade às vias de um ''mundo melhor'', ainda está por vir, e que só depende dos mesmos seres humanos para que, um dia, isso venha acontecer de fato. O título do referido artigo é ''A espera do despertar'', que me fez refletir um pouco a respeito daquilo que as pessoas ''esperam'' desta vida, tendo em mente aquilo que os cristãos devem ou não esperar de Deus. Gostaria, respeitando a visão do referido jornalista, de aqui explicitar, sob tal ponto de vista, parte dessas reflexões.
Vivemos em um mundo cujos princípios socialmente aceitáveis refletem uma busca quase que frenética das pessoas por aquilo que costumamos chamar de ''felicidade''. O foco desta busca arrivista está no ter, isto é, quanto mais eu tenho muito mais eu sou; em suma, é preciso ter para ser feliz. Ninguém mais está interessado em valores como solidariedade, humildade, altruísmo, ou renúncia em favor do outro, pois tudo gira em torno do ganho e do prazer, da autocomiseração e do egoísmo, do possuir e cultivar coisas que prezem somente pelo bem-estar pessoal, profissional, emocional e financeiro de cada indivíduo.
Com uma boa parte da igreja cristã, lamentavelmente, não tem sido muito diferente. O que se tem pregado e vivido ultimamente é um evangelho distorcido, um ''evangelho'' água-com-açúcar ou o ''evangelho'' do gatinho, em que o que mais se faz é acariciar e enaltecer o ego das pessoas até que elas saiam ''ronronando'' de prazer; o evangelho da prosperidade, com o pleito ufanista pela herança digna dos ''filhos do Rei'', o evangelho do ''Cristo-faz-de-tudo-um-pouco'' (expressão utilizada por Antônio Carlos Barro), do eu quero, determino, decreto, e ai de Deus se não me atender! Ou seja, todo tipo de evangelho menos o essencial, que aponta para a cruz de Cristo.
Neste sentido, pode-se afirmar que muitos dos que se dizem cristãos ainda não compreenderam os ensinamentos fundamentais sobre a missão e sacrifício terrenos de seu Mestre, cujo referencial central é a cruz, e que, por sua vez, aponta para o caráter paradoxal e singular de Jesus; o único Deus que morreu pelo pecado de toda a humanidade, vivendo uma vida exclusivamente voltada para amar e servir a Deus Pai e ao próximo. Nenhum outro Deus foi capaz disso (ver: I Pedro 1:18-20).
E é justamente por isso que ser discípulo ou seguidor de Cristo significa, ao contrário do que muitos têm buscado no cristianismo ao longo da história, não mais que percorrer voluntariamente o mesmo caminho que ele percorreu: o ''caminho da cruz'' - que, em outras palavras, quer dizer amor, abnegação, sofrimento e glória (ver Mateus 16:24,25). Da mesma forma, a ressurreição de Cristo não deve ser encarada como uma anulação à cruz - uma utopia de tantos que buscam a ''ressurreição'', o ''Jesus celestial'', sem ter que necessariamente passar pela cruz (encarnação e morte) - mas como uma complementação do sacrifício de cristo na cruz, como símbolo da vitória sobre a morte, do ''sim'' de Deus Pai à obra do filho; a prova real de que nossa fé e esperança não são vãs (ver I Coríntios 15:12-19).
Portanto, o despertar da humanidade para uma ''nova vida'', já foi ''consumado'' por Jesus Cristo na cruz do calvário (João 19:30), possui confirmação através de sua histórica ressurreição (Lucas 24:34), e, por fim, encontrará sua plenitude com seu glorioso retorno e a implantação definitiva do Reino de Deus aqui na terra (Atos 1:11). Este sim é o rememorável sentido do ''despertar'', fundamento maior para a felicidade, salvação e vida eterna presentes no Filho de Deus.
JONATHAN MENEZES é estudante de História na Universidade Estadual de Londrina e membro do Movimento Evangélico Progressista


