Quando Jesus disse ''o meu reino não é deste mundo'', não se referia a ele em particular, mas sim a ele e a toda a sua irmandade terrena. Também não fazia referência a um ponto do universo mas a uma condição. Em outras palavras, que o reino do espírito não é o da fisicalidade. Corpo e espírito são dissociados, embora juntos no experimento terreno. Ele queria dizer que o reino do seu espírito (e do espírito de todos) não era o corpo temporal ao qual estava temporariamente agregado, mas a eternidade.
A nossa individualidade espiritual compõe a grande soma, a consciência universal, que denominamos Deus. Nosso espírito único, tão velho quanto os tempos eternos, veio transmigrando através de muitos corpos e de muitos ciclos, porém sempre um apenas. O fracionamento dessa vida única em várias vivências foi uma fórmula que, antes de aqui ancorar, cada um de nós escolheu, por razões múltiplas. Aquilo que estamos fazendo e o que nos acontece são indicativos dessas razões.
Quando Jesus dizia ''eu'', referia-se a todos. Quando ele disse ''o Reino está dentro de vós'', queria dizer o mesmo, que o Reino não é o desta condição, mas aquele do Eu Superior dentro de nós; que o reino era nossa vida eterna, que só pode ser vivida pelo espírito, eis que não há eternidade no corpo. Quando ele disse ''procurai primeiro o Reino de Deus'', quis dizer esse Reino em nós, que era ali onde deveríamos buscá-lo e não em outro lugar. ''O Pai em mim'', ele dizia. Em outras palavras, o Pai em cada um de nós. Pai era uma expressão adotada pelos hebreus para significar o pai carnal e um ''Pai que está no Céu''. Jesus valia-se da mesma linguagem, mas ele só revelou os mistérios a poucos, que eram os seus discípulos mais amados e iluminados.
Devemos entender que nosso corpo físico é também um aspecto de Deus, assim como todas as coisas materiais, mas estas perecem e se convertem em pó. Já o espírito é eterno, assim como é eterna a forma de espírito presente nos reinos mineral, vegetal e animal. Jesus falava e agia em momentos em que era apenas o homem; e falava e agia quando revestido de seu fogo divino, o fogo crístico, então já não era ele (''não eu'') mas o Pai nele (''o Pai em mim''). Cada ser humano é dotado do mesmo fogo crístico, mas se não o desenvolve e o reacende, esse fogo mantem-se baixo e sem força. (''O que eu faço vós também o fareis, e ainda melhor''). Todos sabem quem disse isto, mas o homem não entendeu e não quis desenvolver esse atributo, preferindo o comodismo de adorar Jesus.
O filho unigênito do Pai o Cristo, que não é Jesus mas a chama divina doada aos homens era (é) esse fogo crístico subjacente. Fortíssimo em Jesus, como foi em Buda que o antecedeu e em outros super-iluminados avatares. A igreja cristã dos primórdios revelou que ''ninguém chega ao Pai senão através do filho'' o 'filho' maior, o caminho único, que é esse fogo divino. Ou: que ninguém chega à plenitude eterna senão através desse envolvimento total com a sublime luz crística, a luz de Deus, o estado de absorção plena dessa chama como ocorria com Jesus. Enfim esse poder que nos reconduz à condição de seres crísticos, seres luz puro espírito. Jesus não poderia ser um ''filho único'' se veio nos falar de fraternidade e de que éramos todos irmãos, ele incluído ele e nós enquanto seres carnais, ele e nós idênticos seres crísticos.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

mockup