ESPAÇO ABERTO - O que está acontecendo?
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de novembro de 2004
Ana Maria Preuss Leonarde 
O mundo tem sido palco de um duelo entre duas formas de lidar com a existência: a primeira, tradicional e conhecida, principalmente pelos mais antigos, implica uma cadeia de valores subjetivos, morais, éticos... Onde o indivíduo recebe o respeito dos seus pares e faz por merecer. Neste primeiro modo de relação entre indivíduos, para a psicanálise, o relacionamento tem por base a cadeia de significantes, que de forma simplificada poderíamos definir como uma relação subjetiva, baseada na formação do sujeito e, por isso, pessoal. Um exemplo disso é a forma de respeito que os mais velhos têm uns pelos outros, onde as pessoas valem pelo que elas representavam e um ''fio de bigode'' era suficiente para garantir a palavra e a honra do indivíduo que estava sendo representado por ele.
A segunda é uma forma nova de relação entre os indivíduos, onde o que vale é o produto final, não os fins utilizados para consegui-lo. Este segundo modo de relação funciona de forma mais concreta. Em todas as relações a palavra não tem mais peso, como tinha na primeira forma de relacionamento citada acima, o que vale é o objeto ou signo para psicanálise, nem uma assinatura reconhecida em cartório é garantia de pagamento de uma dívida. Fruto do capitalismo, nesta forma de relacionamento as pessoas passam a valer pelo que têm e não pelo que são, e são consumidas como se fossem produtos. Os relacionamentos passam a ser de uso e descarte, o respeito pelo outro passa a ser relativo ao poder que este detém. Torna-se perceptível este tipo de movimento tanto no ''ficar'', que é realizado com qualquer um e em qualquer lugar, como no sequestro. Em ambos os casos o outro não passa de um objeto com o qual se consegue atingir um ou mais objetivos.
Os indivíduos estão entre a tradição moral já conhecida e que dá origem a uma sociedade onde as relações se baseiam no respeito e uma nova forma de ''relacionamento perverso'', para o qual a psicanálise não consegue visualizar o fim. Cada um de nós está vendo as consequências nas ruas e alguns em suas próprias casas. Se os pais dizem através de atitudes, que qualquer coisa é valida para atingir o objetivo, que subornar, que mentir, que roubar, que vender sua avaliação moral é valido... então estarão autorizando seus filhos e a sociedade como um todo a fazer o mesmo. Estarão passando este tipo de comportamento como natural. O que esta acontecendo? Estamos iniciando uma era onde a sociedade passa a ter por base valores materiais e não morais.
ANA MARIA PREUSS LEONARDE é psicológa em Londrina


