ESPAÇO ABERTO - O que dizer aos nossos filhos?
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 11 de abril de 2005
Marlene Ana Kiewel 
A omissão de instituições políticas, religiosas e a de milhares de cidadãos alemães que poderiam ter desmascarado o nazismo impedindo suas trágicas consequências, levou Gunter Grass Prêmio Nobel em 1999 à questão: ''Como dizer aos nossos filhos''? O bom senso nos evidencia que um e outro, presente e passado são inseparáveis. Consequentemente, ''o que dizer aos nossos filhos?'', pergunta que não silencia, perseguindo pais e mães preocupados com o futuro da descendência humana.
Nos anos 90 havia muita expectativa de que o século XXI fosse o século da ética e estética, enfim, que teríamos um ''novo homem'' (re)construindo a sociedade planetária.
O novo século chegou. Passados os primeiros anos, cruelmente a realidade desmente nossas crenças. Nunca o lucro das grandes empresas, bancos e afins foi tão ávido e evidente, ultrapassando os limites de qualquer código ético.
Assaltos e assassinatos de amigos, vizinhos fazem parte da nossa rotina, calamos para esquecer o mais breve possível.
A utilização do poderio militar pela(s) potência(s) ameaçando, invadindo, impondo seu modo de vida, suas ideologias não acontece às escuras e para quem quiser assisti-las, acontecem em tempo real na internet ou televisão. O sofrimento das nações saqueadas em seu direito à vida, à sua dignidade, cultural e economicamente não dá mais ibope.
A difusão de conceitos que uniformizam, são defendidas pelos amantes das catedrais do capitalismo e seus consumidores supérfluos que vêem na aparência a essência do homem; estão robotizando não só adultos como jovens e crianças.
A falta de privacidade há muito ultrapassou os limites de ''1984'', de George Orwel.
Fazemos de conta que não damos importância ou não notamos que a pequena Terra, maltratada, espoliada, está gritando por socorro e vem respondendo às violações recebidas.
Como explicar aos nossos filhos que urge defender, propagar, exercitar valores que vão contra a maré da prática dominate? E que ainda há tempo e maneiras de proteger a Terra diante da selvageria do dito homem civilizado, que direciona todo seu ser para atender seu único deus: o lucro.
Como dizer aos nossos filhos, que nós - pais e mães - diariamente assistimos a situações de injustiça e que nada fazemos por medo, desilusão ou descrença, ou com pressa, atrasados para ir à igreja, trabalho, levá-los à escola? Que quando encontramos um desconhecido, muitas vezes atravessamos a rua para não precisar encará-lo temendo de que nos peça uma moeda ou as tirem de nós?
E quando nossos filhos perguntarem: ''O que você e sua geração fizeram para construir um mundo melhor?''. Qual será nossa resposta?
MARLENE ANA KIEWEL é escritora e historiadora em Curitiba


