ESPAÇO ABERTO - O quarto poder
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de junho de 2004
Altair Aparecido Galvão 
Todo brasileiro razoavelmente esclarecido sabe do poder que a imprensa tem para influenciar a opinião pública. Através de noticiários, publicidades, editoriais, imagens e sons diversos, a imprensa consegue influenciar a opinião e o comportamento de grande parte da população. Emissoras de rádio e televisão, jornais, revistas e, mais recentemente a internet, conseguem abranger todo o país, em que pese sua imensidão territorial. Justamente por isso, governos, entidades, empresas, além da classe política, investem boa parte de seus faturamentos na imprensa. Através da imprensa assuntos importantes podem ser decididos, como competições comerciais, guerras e eleições. Como exemplo cito o debate entre Collor e Lula na Rede Globo, em 1989. É sabido que o Brasil possui um dos piores indicadores sociais do planeta, sendo que o maior deles é o da desigualdade na distribuição de renda. Enquanto milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza, o país conta com enormes recursos naturais, financeiros, tecnológicos e de conhecimento, que são acessíveis a apenas uma pequena e privilegiada parcela da população. Cabe a imprensa mostrar essas disparidades, mas não é o que acontece; na maioria das vezes ela está ao lado da minoria privilegiada. A brilhante jornalista Marilene Felinto diz que ''Todo jornalista da grande imprensa é, em última instância, um traidor dos interesses da maioria sem poder''. Concordo com ela; o jornalista sofre a influência da ''censura'' do seu patrão, que por sua vez obedece ordens de seus anunciantes, que em algumas vezes é o próprio Estado. Podemos notar essa influência até nos noticiários, onde a elite tem maior espaço, mesmo em acontecimentos trágicos. Quando a violência atinge notáveis, como grandes empresários, esportistas e artistas famosos, a imprensa dá ampla cobertura. Nas tragédias de Ayrton Senna, Mamonas Assassinas, modelos e deputados que desapareceram em acidentes de helicópteros e jatinhos, toda a imprensa cobriu exaustivamente, com edições especiais e centenas de profissionais trabalhando em horário integral. O mesmo não ocorre quando a tragédia ocorre com pessoas humildes, trabalhadores rurais, romeiros e muitos outros cidadãos que perdem a vida até por falta de recursos financeiros.
Entendemos que acidentes com celebridades despertam grande interesse popular, mas a imprensa não pode ignorar o que acontece à sua volta, mascarando a realidade. A imprensa, como se sabe, é o quarto poder, tanto no Brasil como no resto do planeta; cabe a ela divulgar os acontecimentos com precisão e imparcialidade, formando na sociedade o processo gerador de conhecimento consciente.
ALTAIR APARECIDO GALVÃO é matemático e cientista social em Maringá


