ESPAÇO ABERTO - O PT e suas ilusões
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de abril de 2004
Flávio Ramos 
Não foram poucos os que demonstraram surpresa com a caminhada do PT em direção ao centro do arco ideológico, na busca infrutífera de um ideário social-democrata que nem mais existe nos moldes clássicos.
Um misto de ingenuidade e romantismo forjaram expectativas de que finalmente teríamos um país mais justo e, quem sabe, até mesmo uma sociedade de iguais, a partir de uma ruptura com as consideradas perversas organizações multilaterais (FMI, Banco Mundial, etc.) que ditam regras e ferem mortalmente nossa soberania. Doce ilusão, perdida rapidamente num oceano de necessário pragmatismo.
Imaginar um cenário de rupturas num mundo completamente transformado, onde a interdependência das economias molda uma rede que tornam os estados nacionais, conectados numa agenda global, reféns de um poder extraterritorial é, além da citada ingenuidade, uma grande irresponsabilidade.
O trabalhismo inglês e o socialismo francês, para citar apenas dois exemplos, há muito se despiram de suas ilusões, intempestuosas ilusões, que embalaram gerações na busca de um mundo supostamente mais justo.
O PT cumpre, com alguma dor no coração, uma agenda definida, preestabelecida, antes mesmo de assumir o poder. Compromissos globais impedem o governo de ousar. Nada mais injusto do que acusar o PT de continuar as ações do governo anterior, de assumir uma postura neoliberal ou inconsistências teóricas do gênero. São explicações reducionistas. Servem para um bom palanque, mas não explicam as dificuldades em governar num período histórico em que o capital transnacional, impessoal e dotado de uma lógica imprevisível, na elaboração de políticas públicas voltadas aos interesses dos excluídos, define limites e fere autonomias.
O que fará o PT nesses anos de governo? Ora, nada além de políticas sociais compensatórias e políticas econômicas redistributivas. Mas já será o bastante, nos limites da governabilidade. Os petistas mais lúcidos, antes mesmo da conquista do poder político, sabiam disso. Em 2003, 2004 não caberiam aventuras.
Pobre PT, que assumiu o governo num momento em que os sonhos de uma sociedade socialista diluíram-se no tempo. Perderam-se o ideário político, o rumo e as convicções. E, para alguns analistas mais rigorosos, até mesmo seu maior patrimônio simbólico. Manter-se acima do bem e do mal, puro, íntegro e à margem de interesses pecaminosos é tarefa para deuses. Não para partidos políticos, bem-intencionados, mas formados por homens e mulheres, com virtudes e defeitos. Como todos nós.
FLÁVIO RAMOS é coordenador do curso de Ciências Sociais da Universidade do Vale do Itajaí-SC (Univali)


