O governo do PT instituiu a função de primeira-dama-executiva, dando à esposa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Marisa, um contíguo ao do marido no Palácio do Planalto e as atribuições de compartilhar, embora isto não esteja previsto na Constituição, das decisões de governo. Ficamos agora sabendo, pela ''Folha de S. Paulo'', de outra criação original petista, a função de primeiro-filho.
Pois José Carlos Becker de Oliveira e Silva, o Zeca do Dirceu, filho do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, foi pego com a boca na botija agenciando audiências de prefeitos com ministros e a liberação de verbas para o Noroeste do Paraná. Zeca é o encarregado do escritório regional da Secretaria do Trabalho do Paraná em Umuarama. Portanto, é funcionário - comissionado - do governo paranaense.
O primeiro-filho teve mais êxito na liberação de verbas que a maioria dos deputados federais de todo o País. Somente do Ministério da Saúde, ele obteve R$ 607 mil para serem distribuídos a vários municípios do Noroeste paranaense e do Ministério de Assistência Social, R$ 823 mil, provenientes do programa Ações de Geração de Renda para Populações Carentes. No primeiro caso, a liberação foi feita como se tratasse de emenda parlamentar e no segundo, a verba - correspondente a 12,7% do total liberado para esta finalidade - foi obtida diretamente no ministério.
O tráfico de influência, infelizmente, é um mal que acomete todo governo, em maior ou menor grau, e está previsto, para efeitos punitivos, em vários códigos jurídicos, entre eles o de ética do funcionalismo. Admitir que ele ocorra e não encontrar impedimentos éticos em sua existência é mais que um disparate: é um tapa na cara de todo brasileiro e um grave precedente para se institucionalizar essa prática entre os funcionários ativos dos três níveis do Executivo, algo hoje em torno de quatro milhões de pessoas.
O governo petista considera a coisa mais natural do mundo dar amplos poderes ao filho de um ministro, atendendo a seus desejos com mais presteza que aos dos deputados federais, legitimamente eleitos para, entre outras funções, representar os interesses da população junto ao governo federal.
''Não há nada de ilegal'' nesse procedimento, afirmou um dos vice-líderes do PT na Câmara, Walter Pinheiro. E o ministro da Justiça, Thomaz Bastos, despe-se de sua condição de jurista para lançar esta pérola de hipocrisia: estão criando um ''frenesi'' para atingir o ministro José Dirceu, disse ele.
Frenético, na realidade, está o governo diante da sequência de denúncias sobre a conduta pouco ortodoxa de seus membros, sequência que dá sinais - esperamos que errôneos - de que uma avalanche de revelações comprometedoras se aproxima e poderá soterrá-lo.
LUIZ CARLOS HAULY (PSDB) é deputado federal pelo PSDB-PR e membro da Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara dos Deputados

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