ESPAÇO ABERTO - O preço da isenção
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de agosto de 2003
Tarcísio Vanderlinde 
O discurso sobre a reforma da Previdência que chega à população não conta toda a verdade. Omite aspectos que por honestidade histórica deveriam ser divulgados e colocados na balança. Quem deverá pagar por todo o dinheiro da Previdência até hoje arrecadado e que foi desviado para outras finalidades? Dificilmente alguém responderá esta pergunta. Há um péssimo costume de não passar todas as coisas a limpo neste País.
Embalado pelo generoso reajuste de salário no apagar das luzes da era FHC, o Congresso tornou-se um rolo compressor que abafa e impossibilita qualquer manifestação de representantes do povo que ousam discordar. Alguns ilustres representantes, diante da incerteza do momento, se apressaram em requerer suas aposentadorias. Para os outros, irão estabelecer novas regras. Discordar virou sinônimo de anti-patriotismo diante da força iluminada das decisões com direito a votações antecipadas e obscuras negociações pela madrugada com alguns cidadãos mais iguais.
A maioria da população apóia a reforma e só um insano não concordaria que existem coisas que precisam ser mudadas. O que não se esperava, é que para derrubar privilégios considerados imorais está se encontrando um jeitinho para manter privilégios considerados ''essenciais'', ''estratégicos'' para o bom funcionamento do Estado.
Inventou-se uma coisa chamada isenção para justificar a manutenção dos privilégios. O ''preço da isenção'' é na verdade uma expressão eufemística que ideologicamente trabalhada, acaba sendo aceita pela opinião pública como legítima. A propósito, qual seria o preço da isenção? A má interpretação do princípio da isenção está deixando a questão mal resolvida, e um dia um novo acerto de contas precisará ser feito. A isenção não tem preço. Receber mais, não garante que ela será exercida plenamente.
Tudo indica que continuarão existindo cidadãos mais iguais que acham absolutamente normal e legítimo receber salário maior do que o presidente da República para servir à sociedade. Depois temos que ainda suportar discursos sobre melhor distribuição de renda, etc. e tal. A reforma acabou tendo o mérito de ensinar aos menos iguais que a democracia brasileira é desigual e manterá um sistema de castas em benefício do ''bem comum'', ou seria de alguns?
Em relação aos ''intocáveis'', a tradição bacharelesca desde tempos imemoriais, não permite a crítica ou dissidência que é severamente censurada e punida. Há quem diga que a reforma está acabando com corporativismo. Qual corporativismo? Do jeito que está sendo proposta, apenas servirá para acalentar sonhos libertários de que algo melhor ainda terá que ser feito um dia.
TARCÍSIO VANDERLINDE é professor da Unioeste em Marechal Cândido Rondon


