ESPAÇO ABERTO - O positivo da fragilidade humana
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sexta-feira, 07 de maio de 2021
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos 
A pandemia da Covid 19 está expondo mais do que nunca as vísceras da nossa fragilidade. E, a bem da verdade, não somos bons neste quesito. Revelar a nossa fraqueza, os pontos desprotegidos, os flancos expostos, sempre foi o nosso calcanhar de Aquiles. Porém, nada existe de negativo em mostrarmos o quanto somos frágeis e até, com audácia, fazermos dessa experiência algo salutar e benfazejo. O conhecido cardeal e poeta português, dom José Tolentino, ao relembrar a cena emblemática do Papa Francisco há um ano, caminhando sozinho na Praça de S. Pedro sob uma fina chuva, afirma que nesse dia, com esse gesto, Francisco “ousou habitar a vulnerabilidade”!
Realmente, o Papa não falou apenas do momento de impotência que o mundo estava passando! Ele próprio se mostrou frágil. E porque não dizer, impotente! A sua atitude, tão eloquente na imagem transmitida ao mundo, de um ancião cambaleando pelo reflexo da dor ciática crônica, nos dá um recado magistral: não devemos ter medo de adentrar no mundo das nossas fraquezas e ali nos reconhecermos como humanos. É isto que somos. Bem nos lembra Paulo em 2 Cor 12,10: “Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte”!
Tolentino nos adverte, que “a cultura dominante, o “mainstream” modelado como um automatismo pelas nossas sociedades consumistas, fez da vulnerabilidade uma espécie de tabu. A fragilidade está sujeita a um ocultamento. E à força de interditar-nos o encontro com o sofrimento humano, cada vez menos sabemos reconhecer-nos nele”.
Por conseguinte, a experiência da fraqueza, do vazio, do abandono, a que esta pandemia parece nos ter conduzido, é também um promissor ponto de partida. Há uma comunhão e uma solidariedade intrínsecas a esta situação inédita nos últimos cem anos. Descobre-se de repente que não estamos sós e que não sairemos desta calamidade sós! A teimosia dos que não captaram esta dimensão ao longo dos meses foi paga com o alto preço da morte, inclusive de entes queridos. O mundo globalizado pode até tentar ignorar a fragilidade inerente a esse processo, mas a realidade nua e crua do vírus fará questão de lembra-lo que, ou se salvam todos ou ninguém se salva. Como nos lembrava Aannah Arendt, a verdadeira ação política é sempre uma co-ação e nada de politicamente relevante pode surgir do individualismo – o isolamento de um indivíduo – ou das ideias e intervenções de um subjetivismo exacerbado.
Na pequenez exposta perante um inimigo “incurável”, revelou-se a grandeza de uma humanidade, que posta à prova de fogo, descobriu uma vacina num recorde de tempo. Porém, a busca desenfreada da imunização de um país, ignorando o resto do mundo, é um passo contraditório com a extraordinária descoberta. O ser humano continuará sob a égide da sua fragilidade, mesmo eliminando o coronavírus. No entanto, “o maior líder é aquele que reconhece a sua pequenez, extrai força de sua humildade e experiência da sua fragilidade” como nos diz Augusto Cury. O rei Davi, mencionado no Antigo Testamento, em sua oração, registrou o choro e o lamento que tomou conta da sua vida em virtude da sua debilidade e fraqueza humana e não deixou de mencionar que ficou confuso e desorientado quanto à vida e aos desafios que estavam ali presentes. Contudo, foi nessa lastimável situação que ele se encontrou como verdadeiro ser humano e assim ficou para a história na ascendência do próprio Jesus.
O ato de crer em si é demonstração de uma fragilidade sem limites. Aquela que experimenta o silêncio de Deus e caminha na penumbra e na escuridão, em busca do sentido da vida, que jamais se vislumbra na prepotência e na arrogância. Crer é um ato comunitário por excelência também, embora quase sempre menosprezado. Uma fé individualizante representa uma tentativa injusta e inglória de superação, que não corresponde à índole do ser humano enquanto tal.
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina


