ESPAÇO ABERTO - O PONTIFICADO DE BENTO 16
A mídia de modo geral enfocou os problemas, suspeitas, críticas em relação à Igreja, por ocasião da renúncia do Papa. É certo que a Igreja precisa sempre de conversão e de crescimento na santidade. Não podemos, porém, ocultar as maravilhas da graça no pontificado do papa Bento 16.
Ele em continuidade com o estilo de João Paulo 2º, realizou viagens apostólicas pelo mundo com sucesso, simpatia e simplicidade. Esteve no Líbano, na Jordânia, em Israel, em Cuba, no México, no Benin, no Brasil, na Polônia, em Valencia (Espanha), Madrid, Sidney, Mariazell (Áustria), Malta, Estados Unidos, Lourdes, Fátima, Camarões, Angola, Republica Checa, e tantos outros lugares, como sua terra natal, a Alemanha onde fez várias viagens. Portanto, foi um papa missionário.
No dia 4 de novembro de 2009 o papa Bento acolheu os anglicanos na Igreja Católica. Foi um gesto profético em relação ao ecumenismo. Foi firme na promoção da unidade dos cristãos. Suas obras tornaram-se best-seller, especialmente os três volumes intitulados "Jesus de Nazaré". As encíclicas "Deus Caritas est" (Deus é amor); Spe Salvi (Salvos na esperança) e Caritas in Veritate, são tesouros teológicos, sem esquecer o "Compêndio do Catecismo da Igreja Católica". Um papa escritor, sábio, culto.
No primeiro ano do seu pontificado 4 milhões de pessoas passaram pela praça São Pedro. O povo acorria em massa para ouvi-lo. O primeiro Sínodo por ele presidido foi em outubro de 2005 sobre a Eucaristia. Na exortação Apostólica "Sacramentum Caritatis" ele faz uma profética defesa dos pobres, da ecologia e da paz. "A Eucaristia habilita-nos e impele-nos a um compromisso com as estruturas deste mundo, obriga-nos a diminuir o escândalo da fome" (nº 91). Escreveu ainda: "Sem a dimensão social não podemos receber dignamente o Corpo e o Sangue de Cristo" (nº 89). Ele mesmo ajudou financeiramente a Igreja da Amazônia, com somas generosas. Ajudou também o Japão por ocasião do tsunami.
Em Malta, Austrália, Estados Unidos, Bento 16 encontrou-se com as vítimas da pedofilia e comovido pediu perdão a todos e emanou leis rigorosas a este respeito. Ele disse: "o mau exemplo dos cristãos ajudou a fortalecer o "século da incredulidade", é urgente reatar a amizade com Cristo" e fortalecer a santidade da Igreja. Alguém classificou o pontificado de Bento 16 como "Pontificado da experiência de Deus".
Cabe-nos reconhecer que o papa Ratzinger nos confirmou na "segurança ética". Foi muito incompreendido e por isso criticado. Passou por um "martírio de ridicularizações", mas teve a coragem da resistência. O papa é "testemunha do crucificado", dizia. O fato é que ele atraiu a simpatia dos homens e mulheres de cultura. Seus últimos anos de ministério petrino estavam voltados para a "nova evangelização" criando no Vaticano o Pontifício Conselho para a Nova Evangelização" e estabeleceu na Igreja o Ano da Fé (2012-2013). Seu último documento oficial foi a "Carta Apostólica, Porta Fidei" (Porta da Fé). O secularismo, a indiferença, a descristianização do mundo transpassaram o coração do papa Bento. A resposta a esse sofrimento foi a promulgação do Ano da Fé. "Hoje não podemos mais supor a fé. É preciso propô-la" (Bento 16).
Três dias antes do anúncio da renúncia, ele citava aos seminaristas de Roma o texto do evangelho de Lucas: "Somos servos inúteis" (Lc. 17, 10). Aqui está a radiografia do seu coração, ou seja, a espiritualidade do esvaziamento de si, da descentralização do próprio ego, portanto, de alguém que se esgota na sua dádiva. Um dia a história haverá de reconhecer que o Santo Padre, Bento 16, foi um Papa Santo, pela pesada cruz que ele abraçou e carregou.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina.





