Segundo Eduardo Wolf, doutor em Filosofia pela USP, “A popularização da expressão ‘guerra cultural’ se deve a algo muito simples: uma intensa atividade da direita digital, fortemente influenciada pela direita digital americana, fez circular na última década um conjunto de teorias sobre como se dá a dominação da esquerda na cultura e na sociedade, e como a guerra cultural é a grande guerra a ser travada para 'salvar' o país."

É essa guerra cultural que o governo federal está empenhado. Contra o conhecimento, a ciência, a realidade e a história. A intensão do governo é estabelecer uma “nova verdade", A guerra é sobretudo negar toda a dinâmica social, inclusive os fundamentos científicos. Tudo que significa luta por direitos e reconhecimento de comportamentos diferentes dos tradicionais e ideias diferentes é considerado de “viés ideológico de esquerda” e precisa ser banido pois é afronta aos princípios morais da sociedade brasileira.

Luta ambiental, indígena, de LGBT, de negros, de mulheres e por direitos humanos e sociais, na visão da guerra cultural, são coisas que a esquerda incrustou na sociedade. Assim, todas essas lutas são ataques contra os princípios morais sagrados da nação. Direitos sociais são mamatas que quebram o querido Brasil. A guerra cultural consiste em ser contra qualquer movimento que coloque em perigo o status quo reinante, ou quer restabelecê-lo antes de toda essa balbúrdia. Por isso os guerreiros se autodenominam orgulhosos de conservadores nos valores.

A guerra cultural ora em curso consiste em empobrecer o cidadão de consciência e colocá-lo em seu lugar pra reproduzir a ordem do sistema, sem causar abalo em sua estrutura. O “cidadão” sem cultura, sem conhecimento, sem cidadania plena. Os conservadores detestam a democracia de verdade. Para eles, cidadãos de bem, é um horror conviver com os diferentes, aliás, é um horror existir os diferentes.

A guerra do governo federal é subverter a verdade. Tática da guerra cultural é desacreditar a imprensa. A imprensa, por mais que possa ser parcial, ainda assim precisa divulgar os fatos, pois necessita credibilidade para sobreviver. A turma da guerra cultural precisa desacreditar a imprensa e os jornalistas. Os fatos precisam ser desacreditados e reinterpretados na ótica conservadora para condenar os opositores. Assim atacam a imprensa acusando-a de mentir e omitir a verdade construindo sua verdade paralela no submundo das redes sociais.

O terreno para florescer as verdades do governo em sua guerra cultural é extremamente fértil. É o terreno da ignorância, daí o ataque à educação. Desejam manter na ignorância a maioria para manipular. Quem acredita que a terra é plana é capaz de acreditar em qualquer coisa. Hordas de ignorantes dão suporte às mentiras e à guerra cultural contra a ciência, a educação e a imprensa.

O perigo desta guerra cultural pode ser apreendido pela história. Em 1934 na Alemanha assumiu o poder um homem conservador e terrivelmente cristão. Embora tenham espalhado que Hitler era de esquerda (assim como dizem que a terra é plana), quando assumiu o poder ele perseguiu insistentemente todos os opositores e fundamentalmente a esquerda, por quem Hitler nutria um absoluto ódio, inclusive com o argumento que a Alemanha necessitava resgatar seu princípios e valores culturais e morais da vida social. As consequências da guerra cultural que Hitler iniciou nós conhecemos bem. Portanto não é prudente desconsiderar as ações diárias do governo que ora habita o planalto central. Estejamos prontos para diuturnamente defendermos a democracia, pois fora dela é a barbárie.

Wilson Francisco Moreira, cientista social (Londrina)

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