ESPAÇO ABERTO - O perfil mudou
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quinta-feira, 03 de dezembro de 2020
Adriana de Cunto - Grupo Folha 
Oito meses se foram desde o início da pandemia do novo coronavírus no país e ela trouxe um perfil diferente para essa grande nação. O que antes era apenas o morador de rua que recebia a tão esperada “quentinha” de entidades sociais ou da igreja no final do dia, hoje são entregadores, trabalhadores desempregados, famílias que vivem em ocupações, pessoas que não sabem como irão sobreviver depois do fim do auxílio emergencial. Pessoas que veem nessa atitude, a única refeição do dia, a única esperança que exista um amanhã.
Tratar de um vírus tão letal como o novo coronavírus não se resume apenas a medicação e acompanhamento médico. A realidade vai muito além das portas de uma unidade de saúde. Vai muito além de um isolamento social. As consequências de um distanciamento, de uma queda na economia são sentidas principalmente por quem a move dia após dia. Por quem atravessa uma cidade de ponta a ponta em transportes públicos abarrotados de outros milhares na mesma situação.
Quando o padre José Mario Ribeiro, da paróquia Nossa Senhora da Conceição, no Tatuapé, região leste de São Paulo, diz: “Ontem mesmo um senhor me disse que trabalhou o dia inteiro sem comer e que estava nos esperando para pegar uma marmita que seria a única refeição dele”, nos faz refletir que “o que estamos vivendo e o que ainda há por vir?”
É nítido que o combate a proliferação do vírus de forma consciente e eficiente seja necessário, mas ainda mais primordial é destinar uma atenção em como a sociedade que viu do dia para noite sua renda cair bruscamente ou se transformar em nada, está sobrevivendo no hoje, no agora.
Dialogar sobre uma realidade que as vezes não é a sua, é ainda mais glorificante, pois nos faz entender que hoje estamos aqui, no conforto de uma casa, refeições dignas, com certo amparo, mas que no amanhã poderá essa realidade ser completamente transformada. Tratar de qualidade mínima existencial, de alimentação básica, é tratar de dignidade, é tratar de direitos fundamentais de qualquer cidadão, do Oiapoque ao Chuí.
Aos que criticam um Estado Social, que compactua com a ideia de que a Constituição Cidadã de 1988, fruto de um momento pós restrições de direitos, é garantista demais, trago uma reflexão para todos os dias: “É muito bom usufruir da liberdade de ir e vir, de saúde pública e gratuita, das garantias de propriedade. Agora meu caro, como seria se o Estado virasse as costas e dissesse: ‘se vira’”.
Nataly Cassaniga Resende, acadêmica de direito, da Universidade Positivo/Londrina.


