O caso do adolescente de 17 anos, apreendido à zero hora do dia 26 de setembro pela Polícia Civil de Londrina, que confessou os assassinatos da estudante Andréa de Jesus Cabral e de Rúbia Graziele de Almeida, no dia 16 do mesmo mês, suscita uma reflexão que talvez ninguém se deu conta. De acordo com o delegado-operacional da 10ª Subdivisão Policial de Londrina (SDP), Joaquim de Melo, a apreensão ocorreu graças a uma denúncia feita por telefone. Um bloqueio foi providenciado e o ônibus foi parado. A apreensão foi realizada no KM 20 da BR-369, próximo a Cambará, na divisa com o Estado de São Paulo, em um ônibus com destino a Campinas (SP).
  Esta situação nos coloca duas questões cruciais que envolvem empresas de ônibus interestaduais: primeira, a ausência de fiscalização quanto ao embarque de menores sem o responsável ou na falta deste, pelo menos de autorização, e segunda, a falta de detector de metais no momento em que os passageiros se apresentam para o embarque. Pensemos nos homicídios que este adolescente cometeu e que se não fosse por um telefonema anônimo (?) provavelmente entraria para a lista dos crimes insolúveis uma vez que a fuga era dada como certa. Durante a viagem não poderia ele usar a arma que portava – um revólver calibre 32, aliás, o mesmo segundo o delegado, que executou as duas moças – para praticar outros delitos?
  Eu mesma, durante o tempo em que morei no Rio de Janeiro, viajava mensalmente a Londrina, porém, nunca presenciei esse controle por parte da empresa de ônibus. E olhe que o trajeto requer essa precaução, considerando os incessantes conflitos entre traficantes que estamos cansados de saber que ocorrem por lá. A abordagem do passageiro não deve se circunscrever a apenas preencher um bilhete com dados pessoais. Além da questão das armas, deve servir de parâmetro também às apreensões de drogas que têm se tornado freqüentes nas chegadas de ônibus nas rodoviárias.
  Enfim, uso propositalmente acima a expressão, ainda porque espero que um dia esta medida passe a fazer parte da rotina de todas as empresas responsáveis pelo transporte rodoviário de pessoas, que às vezes têm que permanecer na estrada durante horas. Em tempos de violência e criminalidade exacerbada há que se pensar e agir com responsabilidade social e, neste sentido, as empresas de ônibus não estão cumprindo o seu papel. Se houver uma próxima vez, a Polícia pode não ser agraciada por um telefonema denunciando a fuga de um infrator.

FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Sociologia e Ciências Políticas em Londrina

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