Alguém um dia inventou o dito que afirma ser os olhos o ''espelho da alma''. Segundo tal dizer, os olhos refletem a ''pessoa'' que há por dentro de nós, e o olhar é a exterioridade do que acontece internamente. Acredita-se que com um simples olhar, é possível expressar sensações e percepções em relação ao mundo que está a nossa volta; expor o ''estado'' mais profundo de nossas almas, e, mais incisivamente, exibir a realidade ''oculta'' de nosso ser.

Assim, a visão manifesta-se como o grau conseguinte do olhar. Ela pode ser tanto a ''graça'' como a ''des-graça'' do olhar (do indivíduo que vê), posto que ela é o canal manipulador das ''imagens-mensagens'' que procedem ''de fora'', bem como das ''percepções-respostas'' que vêm ''de dentro''. A maneira como direcionamos nossos olhares para as pessoas e as ''coisas'', determinam as formas com as quais nos relacionamos com as mesmas.

Entretanto, Paulo diz que tudo o que ''hoje'' vemos, é visto em parte. Nossa visão é ''caolha'', unilateral, tendenciosa. Deus é quem realmente ''vê''. Tudo o que ele vê com nitidez, para nós não passa de imagem distorcida. Por quê? Ora porque Deus é singular e primoroso. E para nós ainda não veio a plenitude do que é perfeito. ''Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido'' (1Co. 13:12).

Jesus Cristo foi o homem de toda graça, pois podia olhar muito além das meras aparências de cada pessoa que cruzasse seu caminho, e vê-la como ela realmente era vista, isto é, como ser criado, em amor, à imagem e semelhança de Deus. É como uma viagem para dentro do outro, buscando extrair e valorizar o que nele há de melhor. Jesus conseguia fazer isto com maestria, como que destituído dos vícios e patologias que assolam o coração humano, expressando uma sintonia com a misericórdia, com o amor e a graça do Pai, moldando seus atos e caráter segundo o coração do Pai.

E a nós, o que nos resta? De tudo, o que permanece, posto que nossos olhares refletem feições e juízos incompletos acerca do que foi criado, e que nada podemos designar além do que, pelo criador, assim creio, já fora designado desde a eternidade? Resta-nos o desafio de sermos ''imitadores de Cristo'', cooperando com ele na realização do Reino, moldando nosso olhar apaixonado e, ao mesmo tempo, injusto, bem-intencionado e parcial, ao seu olhar da terna Graça Divina. Permanecem, como diz Paulo, a fé, a esperança e o amor. A ''Fé'' expressando nosso alicerce, a ''Esperança'' nosso alvo, e o ''Amor'' nosso lema relacional de vida.

JONATHAN MENEZES é estudante de Teologia em Londrina

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