A sociedade brasileira vem acompanhando atentamente a evolução de certos movimentos sociais organizados em prol da defesa de seus direitos, em especial o MST. A história desses movimentos no Brasil é bastante curiosa: repressões no período colonial; repressões no período imperial; repressões no período republicano. O Brasil é uma jovem democracia acostumada ao autoritarismo e ainda não aprendeu a conviver com movimentos sociais organizados e pautados nas lutas de classes.
A sociedade brasileira ainda desdenha das reivindicações do MST. A grande verdade é que para quem pertence às elites brasileiras, ou sinta se ligado a elas, as lutas dos movimentos sociais são, para eles, um tapa na cara. Não tenho procuração para defender o movimento, contudo, gostaria de analisar alguns aspectos dessa organização.
A Reforma Agrária para a promoção do homem no campo é fundamental para a redução das diferenças sociais no país. Marx nos ensina que a história da humanidade é a história das lutas de classes: livres x escravos, senhores feudais x vassalos, patrões x empregados, e assim por diante. Todas essas lutas sempre foram mediadas pelo poder público, que sempre foi tendencioso aos interesses das minorias dominantes.
A Reforma Agrária no Brasil ainda é incipiente. A maioria absoluta (90%) dos assentamentos no país ocorreram motivados por invasões e ocupações. Afinal, ''pacificamente'', ''na base da negociação'' e ''pelo diálogo'' ela poucas vezes ocorreu. Cientistas sociais alertam desde o início do século 20 que as diferenças entre ricos e pobres, entre incluídos e excluídos aumentariam em grandes proporções com o passar dos anos se políticas públicas de distribuição de renda não fossem implementadas. Segundo eles, isto aumentaria a pressão dos excluídos via organização social. O MST é um dos exemplos práticos dessa profecia.
Ignorar o MST e sua forma de luta é o mesmo que ignorar a História. Lembremo- nos da Revolução Francesa e de seus fatos antecedentes: alta concentração de renda, corrupção no setor público, enorme carga tributária, excesso de políticas compensatórias, o povo faminto, sem moradia, sem emprego, sem acesso à educação e sem terra. Em decorrência disso o povo acampou-se nas beiras das estradas, nos arredores das cidades francesas e em propriedades improdutivas. O resultado final é o que conhecemos muito bem: o povo finalmente invadiu as cidades, depôs o poder, degolou o rei e iniciou uma ampla reforma em todos os setores sociais do país.
Não há que se temer o MST. Afinal, nenhum presidente nacional corre o risco de ser degolado. Degolado é o pobre um pouco todos os dias, em consequência vemos o aumento dos ''sem'' e a incompreensão de setores dominantes da sociedade. O culpado pela existência do MST não é o PT, não é a CPT, nem o povo, nem os sindicalistas, nem os oportunistas, nem o José Rainha. A culpa é da concentração de renda e da má distribuição de terras que sempre foi uma prática histórica neste país.
EDIMARÃES SILVESTRE é professor em São Jerônimo da Serra

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