Desde a sua fundação, Brejo Triste sempre esteve na dependência de uma vaca listrada com tons verde-amarelo. Todos, sem exceção, dos mais humildes aos mais abastados, foram acostumados a mamar nas suas trinta e noves tetas. Alguns umbrais dão mais leite, outros menos, mas a cobiça é geral. A vaca é considerada patrimônio material da vila e, por isso, é chamada de "Bonança". Para a grande maioria não há prosperidade sem Bonança. No final do ano passado, depois de uma grande festa popular, Bonança foi beber água – do pouco que ainda restava – no leito quase seco do rio e, acidentalmente, escorregou no esgoto fétido que escorre a céu aberto. A vaca, literalmente foi pro brejo. A preocupação agora é saber como os cidadãos vão sobreviver sem Bonança.
Não bastasse o lamentável episódio, a estrela guia que brilhou intensamente no passado desapareceu por completo da constelação. E as estrelas menores, de pouco brilho, entraram em colisão. O que se vê nas noites de lua cheia são essas estrelas se cochando e produzindo um espetáculo semelhante aos fogos de artifício. Explosões de luzes que se dissipam rapidamente na escuridão.
Na vila, as pessoas passaram a organizar procissões clamando aos deuses o envio de novas lideranças. De início, o velho tucano grasnou bastante e até chegou a liderar algumas dessas procissões. Mas, a pobre ave, encurvada pelos anos da idade e mal sustentando o peso do próprio bico, quase foi pisoteada pelos seguidores. Recentemente, apareceu na parte sul da vila, entre as araucárias, um tucano jovem de penacho elevado e bico enorme, acompanhado de um morcego. Os dois andaram pelo centro cívico da vila fazendo inúmeras estripulias, o que aborreceu a todos. Os membros populares (MP), uma casta de vigilantes locais, ficaram incumbidos de apanhá-los e prendê-los numa gaiola. O morcego foi embora da vila e o tucano permanece, há dias, ensimesmado atrás de uma araucária.
O que tem mesmo aparecido na vila, em bandos, são urubus. Circulam em torno da carniça exalada dos cadáveres dos camaradas sepultos em meio ao lamaçal produzido pela argila preta. Se alimentam de carcaças podres. Dia desses foi possível ver quase quinhentos deles se engolfando na carniça. O que mais tem chamado a atenção dos moradores é que desde que a vaca foi pro brejo, dois grandes urubus permanecem sentados na copa de uma árvore e de lá parecem orquestrar as ações dos demais de sua espécie. Grunhem mais alto que os outros e nunca são vistos em meio aos objetos putrefatos, mas fedem muito. Dia desses, os dois fizeram um voo rasante bem no centro da vila e quase foram capturados pelos membros populares.
Apavorante foi um episódio ocorrido no final de uma tarde acompanhado de forte tempestade que parecia tudo devastar. Era o centésimo dia do novo ano. O povo escutou grunhidos fortes de um corvo, negro e topetudo. Ele deu quinze voltas ao redor da vila. Seu alarido criou medo em muitos, porque após sua orquestração de horror, ele sentou majestoso no lugar que antes havia sido ocupado pela coruja sagrada.
O corvo, da posição privilegiada que ocupa, passa os dias observando todo o movimento da vila. À sua esquerda, vê a pobre vaca atolada no brejo, com os umbrais já secos, a definhar dia após dia. À sua direita, estão os urubus que disputam a carniça do que sobrou dos adoradores da estrela mãe-guia e de sua suntuosa obra construída de argila. Até os dois urubus que vivem na copa da árvore parecem reverenciar o corvo. Estáticos, eles não tiram os olhos do corvo.
No meio dessa trágica situação, estão os moradores da vila vagando em procissões a suplicar a orientação dos deuses com rezas diversas e desencontradas.
Um vento gélido sopra do sul. Sinal de inverno rigoroso. E o corvo, impávido, tudo observa.

LODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR é professor de Ética e Filosofia Política na
Universidade Estadual de Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res.
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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