ESPAÇO ABERTO - O mensageiro da paz
A perda do embaixador brasileiro na ONU Sergio Vieira de Mello é um golpe amargo para o mundo e para o Brasil. Ao longo de sua carreira, este diplomata incansável foi um servidor excepcional da humanidade, dedicado a aliviar o sofrimento de homens e mulheres de todas as raças e credos, crianças e idosos, ajudando-os a resolver seus conflitos e reconstruir suas sociedades despedaçadas pelas guerras. Atentados e guerrilhas nunca são o melhor caminho para dirimir conflitos. Por isso, o mundo da diplomacia e da civilidade está de luto. Com a morte do nosso embaixador, os profetas da barbárie podem ter triunfado num momento, mas jamais vencerão.
Em seu trabalho com pessoas de todos os continentes, como oficial do Alto Comissariado para Refugiados, como coordenador de ajuda de emergência, como representante especial da ONU em Kosovo e no Timor Leste e como alto comissário da ONU para Direitos Humanos, ele impressionava a todos com sua energia e sua habilidade em realizar as tarefas, não pela força, mas pela diplomacia e persuasão.
Perde o Brasil um de seus filhos mais brilhantes, que levava o nome de nosso País com dignidade e altivez a todos os recantos do mundo. Perde a humanidade um homem de vocação pública, internacionalista, dedicado à paz e à justiça. Perdem a diplomacia mundial e a própria ONU, que tinham em Vieira de Mello um exemplo de tolerância e de diálogo, um construtor de tempos novos.
No Iraque, onde o embaixador passou os últimos meses de sua vida, ele estava trabalhando dia e noite para ajudar o povo daquele País a voltar a ter controle de seu próprio destino e construir um futuro de paz, justiça e completa independência. É trágico que ele tenha agora dado a vida a essa causa, junto com outros que, como ele, eram batalhadores devotados.
Aqueles que os mataram cometeram um crime contra a humanidade. Mas é evidente, também, que a morte do diplomata brasileiro foi resultado indireto da política equivocada dos Estados Unidos em relação ao Oriente Médio, que abriu feridas históricas dificilmente cicatrizáveis em curto prazo. O Iraque é o exemplo maior dessa realidade.
Espero, sinceramente, que o sacrifício de Vieira de Mello e outras pessoas traga mais luz a esse debate em escala internacional, que deságue em uma nova ordem internacional, com menor tutela de países ricos e a prevalência cada vez maior de organismos multilaterais como as Nações Unidas. Que o exemplo deste brasileiro batalhador continue a inspirar todos aqueles que defendem o papel de um planeta multilateral mais pacífico e seguro.
RENAN CALHEIROS é líder do PMDB no Senado e ex-ministro da Justiça





