ESPAÇO ABERTO - O menino, o segurança e a cidadania
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sexta-feira, 07 de maio de 2004
Francisca Vergínio Soares 
Definidos pelo sociólogo britânico T.H. Marshall no seu clássico estudo Citizenship and Social Class, escrito no auge da criação do Estado de bem-estar social na Inglaterra no pós-guerra, os direitos civis de uma forma geral estão associados à liberdade de expressão e organização, os políticos à participação na política e os sociais à garantia de uma certa qualidade de vida pela via econômica.
Esta concepção de cidadania é pertinente para refletirmos sobre dois casos recentes ocorridos em Londrina onde os personagens envolvidos nada mais fizeram do que tentar exercer esta tão falada, debatida e manipulada palavra.
Os casos mencionados são o do menino de 12 anos e o do segurança Genival dos Santos Barros, 45 anos. Ambos num ato de cidadania ousaram emitir suas opiniões a respeito de questões que lhe dizem respeito e tiveram, digamos assim, suas atitudes sabotadas. O menino, cansado de sofrer tentativas de assalto ao voltar da escola decide escrever uma carta ao governador Requião denunciando a violência e foi intimado pela polícia a prestar esclarecimentos sobre seu ato.
No segundo caso, o segurança mencionado quase foi interpelado judicialmente por emitir sua opinião sobre o número de vereadores na Câmara de Londrina. Numa enquete feita pela Folha este cidadão emitiu sua opinião dizendo ser ''correta a diminuição, eles só roubam dinheiro que é da gente e se reduzir vai melhorar bastante, principalmente na questão financeira. Vamos economizar para investir em outras coisas que estão precisando, como a saúde''.
Outras vozes também se pronunciaram: ''Eu concordo com a redução e quando teve o abaixo-assinado eu assinei (...). Acho que vai dar no mesmo porque os que ficarem vão querer ganhar mais''. Essas vozes não estão isoladas, elas representam milhares de outras vozes que ecoam no anonimato, provavelmente se pudéssemos fazer uma enquete maior, ouvir todos os segmentos da sociedade, o que será que eles responderiam sobre a redução do número de vereadores? Certamente vários inquéritos policiais seriam abertos por suposto crime de calúnia, difamação e injúria, os mesmos crimes dos quais o vereador Leonilso Jaqueta tentou incriminar o segurança Genival dos Santos Barros.
Tanto o menino como o segurança externaram algo que faz parte do cotidiano de suas vidas, ambos explicitam o que milhões de brasileiros pensam e desejam que é priorizar os serviços básicos que não fazem parte de suas realidades como segurança, saúde, educação, etc. E ainda, não é crime nenhum pedir que se economize o dinheiro público revertendo-o a quem de fato merece: a população. Outro cidadão ao ser ouvido pela mesma enquete desabafou: ''Eu mais que concordo. Vereador não deveria ser profissão e sim alguém para servir o povo. Tem que ser pensado como político e não como profissão, muito menos para sugar o dinheiro do povo (...)''.
O sociólogo alemão Max Weber já dizia isto em seu clássico ''A Política como Vocação''. É ano eleitoral, talvez antes de enveredarem pelos caminhos da política, os candidatos pudessem ter como lição de casa a leitura desta obra que não deixa dúvida sobre o papel que o homem público deveria desempenhar.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e professora de Ciência Política e de Sociologia Jurídica em Londrina e Apucarana


