ESPAÇO ABERTO - O manto de Penélope
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de fevereiro de 2005
Luiz Carlos Ferraz Manini 
Novamente nos vemos às voltas com o assunto Palestina versus Israel. Tal questão nunca pareceu tão perto e tão longe de uma solução. Vários pontos se colocam, nesta longa batalha que se arrasta por quase cinquenta anos, por mais uma decisão insensata e irrazoável de um órgão que se arroga o defensor dos pobre e oprimidos, fazendo a famosa ''política do empurra'', e nunca resolvendo nada. Tal como Penélope, que prometera se casar quando terminasse de tecer seu manto, no qual trabalhava durante o dia e desmanchava a noite, esperando seu amado.
Se matar israelenses é um anti-semitismo, Hitler deve estar ao mesmo tempo feliz e contrariado; diria mais, deve estar bem confuso no seu ideal arianista, derivado de uma teoria estapafúrdia (que se deu o nome de evolucionismo, quando melhor se poderia dizer imperialismo das raças), o líder alemão (austríaco, na verdade, mas deixemos estas picuinhas de lado) pretendia eliminar todos os elementos impuros, de sangue inferior, degenerados... Bom, se é esta a designação para todos que não são loiros, altos, brancos, de olhos azuis, o Brasil que se cuide.
Neste contexto, em sua idéia, os palestinos caberiam perfeitamente bem. Então matemos os palestinos! Mas os mais impuros dos impuros são os judeus! Ah, matem os judeus! Mas quem está matando os judeus são os palestinos! Ah, que confusão. Pra dizer bem a verdade, Hitler deve estar feliz, afinal todos estão se matando, e ele nem precisou mandar fuzilar nem envenenar ninguém.
O erro começa não quando palestinos atacam israelenses, nem mesmo ao contrário. O problema começa com uma tentativa de redimir pecados, ou deveríamos dar outro nome à criação do estado de Israel? Criar uma nação judaica para as maiores vítimas da Segunda Guerra Mundial. Contra eles havia sido impetrado o Holocausto, por serem um povo sem pátria, por suas convicções religiosas e, convenhamos, também por seu poderio. Seis milhões morreram, e por isso lhes deram um território. Ótimo, corrigimos o erro, certo?
Errado. De quem se tirou a terra para se dar aos judeus? Tirou-se dos árabes, criou-se uma nação judaica em meio a um conglomerado de nações muçulmanas, e espera-se o quê? A paz mundial? A fiel compreensão de quem foi usurpado? Além do mais, depois que se põe em jogo a capital espiritual dos monoteísmos? Faça-me o favor!
O problema não é ser anti-semita. Existe alguém mais intolerante que Sharon? Por que não chamam a ele de nazista, construindo o neo-muro de Berlim? Que foi uma tragédia seis milhões de judeus morrerem, isto é indiscutível. Mas e os vinte e dois milhões de russos? Alguém deu um litrinho de vodca a eles para se esquentarem durante o inverno depois de terem sido trucidados no conflito, e terem suas casas destruídas? Alguém pensou que eram todos eslavos, de uma mesma etnia, e que ali se cometera outro genocídio?
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina


