ESPAÇO ABERTO - O Manga tinha gosto de Londrina
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de julho de 2004
Nilson Monteiro 
Fica um buraco no peito quando morre um amigo. Na madrugada do sábado passado, o Manga esburacou nosso peito. Manga, sim. Poucos o conheciam em Londrina como Fernando Queiroz, o da Churrascaria Campo Grande, o sétimo daquele rosário de irmãos que o Antônio Joaquim e a doce Ana espalharam por este mundão. Quatorze, um deles o Manga, o que embarcou primeiro.
Tinha que ser ele. Advogado, campeão brasileiro de judô, uma fera, mas aquele irmão queridinho de todos (o que os outros treze adotaram), o tio mais badalado, o filho do coração do Queiroz, o chegado aos cunhados, o grudado aos amigos.
Viveu pouco mais de meio século, encarnado, como se fosse um milênio. Atravessou todas, maluco beleza, nadou em tonéis, andou no baixo e em todos os mundos, viveu todos os delírios, casou, largou, teve filhos, foi um cidadão desses latejantes, indiferentes ao perigo. Amava até o cerne sua família, o velho Queiroz, irmãos, filhos, sobrinhos, ai de quem falasse mal de um deles.
Briguento, marrudo, provocador, nas suas e nossas andanças adolescentes sustentava a madeira. Pisava fundo no desafio à vida. Tinha algo de angústia agarrada à violenta vontade da alegria. 8 ou 80. Marombeiro, espécie de síntese desta gente que brotou na terra roxa.
A Campo Grande, para quem não sabe, era o ponto. Em torno de suas carnes e, especialmente, de suas feijoadas e cervejas suadas, juntavam-se, aos sábados, jornalistas, músicos, médicos, professores, a classe média exibidinha, alguns exemplares da elite sem ranço, a bandidagem em várias escalas, bichos-grilos, outros, outros, a fotografia da cidade, entende? Nesse cenário, o Manga reinava. Amante de Londrina.
Ele mesmo se arrebentou, o fígado em pandarecos. Foi pra fila de transplantes, saiu antes, ria de seu corpo amarelo, endoidou a família. Dia antes de morrer, ironizava a ele mesmo. Nós, os pés-vermelhos espalhados em meio à bruma curitibana, sentimos saudades deste cidadão londrinense. Essas letrinhas nada mais são do que prova de amizade ao cara e à gente da terra. A pretensão morre aqui.
Hora dessas, Manga a gente se encontra. E quem sabe dá tempo de tomarmos uma. Só uminha!
PS: o Ruy manda um beijo.
NILSON MONTEIRO é jornalista em Curitiba


