A celeuma criada no fim do governo Requião/Pessuti sobre a criação da Defensoria Pública reflete exatamente a forma amadora como nossos gestores conduzem a máquina pública há vários anos. Agora querem a evidência da mídia para que algum clamor popular possa, goela abaixo, levar os deputados a aprovar uma metodologia onde o próprio Estado ainda é incipiente e insuficiente para implantar. Antes de qualquer tema ou ação, os deputados deveriam mesmo é se abster de votações neste final de mandato, pois os escândalos dos diários secretos ainda permanecem vivos na esfera jurídica e a sociedade merece respeito e respostas. Pelo julgamento moral, os parlamentares envolvidos já estão condenados, apesar de alguns reeleitos. E o legado continua.
  Pobres iludidos os que acreditam que ter defensor público vai melhorar os índices de delitos de nossa sociedade. O viés é outro. O assunto atual da criação da Defensoria Pública não pode e não deve criar sombra para tantos outros problemas deixados por herança do Executivo e fidelidade de cumplicidade do Legislativo.
  A estratégia de se evidenciar tanto a Defensoria Pública, como sendo uma queda de braço entre quem entra e quem sai do governo, serve apenas para ocultar outros legados miseráveis que teremos a partir de janeiro de 2011. A começar pelas universidades estaduais públicas com a cruel reforma administrativa que eliminará um expressivo número de cargos e funções, com a aplicação da Lei 16.372 de 30 de dezembro de 2009. Esta inoportuna lei, elaborada por gestores inebriados, vem sendo prorrogada e empurrada com a barriga desde abril deste ano, mas passará a vigorar a partir do primeiro dia do novo ano. Presente de grego. O Estado não precisa de cargos ou funções gratificadas. Basta abrir concurso público e efetivar os servidores temporários. Isso contribuiria para se acabar com os ‘‘favores’’ de acomodação de amigos e parentes, que se tornam assessores parlamentares, alguns ‘‘gasparzinhos’’.
  Depois, como herança maldita, ainda virá a continuidade das altas tarifas do pedágio, para as quais, até agora, só se demonstrou bravatas. Duplicações e melhorias são promessas. Acidentes com altos índices de feridos e mortos são constantes.
  Há de se esclarecer ainda como premissa, o escândalo na Secretaria Estadual de Educação, que culminou, não só com a saída antecipada da secretária, mas trouxe à tona um esquema milionário de desvio do dinheiro público por meio de diárias. São as ‘‘diárias secretas da educação’’. O mais estranho é a quietude dos sindicatos.
  Há também, tão grave quanto, o infindável rombo da ParanáPrevidencia, que passa de R$ 3,2 bilhões. Essa será a mais nova dívida coletiva no Paraná, e a população sentirá no bolso e na carne, pois a proposta do atual governador é, ainda antes do fim do seu mandato, aumentar o desconto dos ativos e taxar os inativos para cobrir a buraqueira. Existem outras prioridades que não podem passar despercebidas. Exemplos? A substituição da força de trabalho; reposição do quadro funcional das polícias Militar, Civil e do Corpo de Bombeiros. Até quando os investigadores farão serviços administrativos? E o sucateamento do Instituto Médico Legal (IML)? Por que não mostram as imagens do descaso? Sem infraestrutura decente e sem os materiais apropriados para se fazer as necropsias dos cadáveres, a situação atual do IML no Paraná é o retrato fiel da falta de dignidade com que se tratam os mortos no Estado. Muitas famílias sepultam seus entes sem a causa mortis evidenciada. São os atestados de óbito com nada óbvio.
  O testamento deixado pelo atual governo do Estado e seu antecessor ainda causará muita dificuldade para os novos gestores, principalmente se trouxermos à discussão toda a verdade da situação da saúde pública do Estado. Uma vergonha.

WILMAR MARÇAL é professor universitário em Londrina

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