ESPAÇO ABERTO - O interesse do povo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004
Rubens Chiaroti 
Deveria ser um truísmo dizer que os políticos são eleitos para defender os interesses do povo. É claro que o cidadão comum, assoberbado por dificuldades de toda ordem, quase sempre confunde os interesses particulares com aqueles da coletividade; mas também é verdade que, em muitos pontos, esses interesses são coincidentes. Assim, ao detentor de mandato público cumpriria, no desempenho de sua atividade política, estar atento aos verdadeiros interesses da coletividade que representa. Infelizmente, em muitíssimos casos, não é isso o que presenciamos.
Londrina não é exceção. Tome-se como exemplo o caso da ''briga'' prefeitura x Wal-Mart. De início, havia dois interesses em jogo: o da empresa, que quer o terreno do ''Colossinho'', e o do proprietário, interessado em vendê-lo. É claro que, como intermediária, a corretora poderia ser considerada um terceiro interesse; porém, representa o vendedor. Mas, como se poderia interpretar a intervenção da prefeitura, com o seu decreto de desapropriação do imóvel por utilidade pública? Ora, dirão, representa o interesse do povo, implícito no termo ''utilidade pública''. É aí que reside nossa dúvida.
Com efeito, a intenção de se construir um teatro municipal em Londrina é antiga. Antecessores da atual administração, inclusive, já teriam destinado um local para esse fim. Dizem até que em imóvel de propriedade da própria prefeitura, portanto sem outros ônus que aqueles de construção do prédio. Entretanto, embora atrativa - tão atrativa que a ela se apegam desesperadamente todos quantos nela ingressam -, a carreira política depende do voto popular, este estreitamente ligado, ao menos em tese, ao reconhecimento do desempenho do político na gestão pública. Assim, o sonho dos antecessores não se concretizou devido à descontinuidade do mandato popular, fato comum na política, sem que se precise adentrar em detalhes.
Hoje, o interesse do poder municipal é fazer o teatro no antigo ''Colossinho'', e faz disto questão fechada, embora seu mandato esteja no fim. O futuro prefeito terá a mesma opinião sobre o assunto? Em suma, onde fica o interesse do povo? Receamos que em lugar nenhum, pois não foi consultado. A verdade é que muito dinheiro se gasta em nome desse suposto interesse.
Uma pessoa bem informada sabe que o teatro é um agente de cultura e reconhece sua contribuição efetiva para o exercício pleno da cidadania. Mas o ''teatro'' não se resume a um prédio, e para o comum dos mortais, que luta por um emprego, o interesse imediato é sobreviver. É-lhe indiferente se o teatro municipal será construído aqui ou ali. Mas lhe interessará saber se o seu representante esteve atento ao seu real e premente interesse. E poderá cobrar eventual desatenção.
RUBENS CHIAROTI é advogado licenciado em Londrina


