ESPAÇO ABERTO - O impasse da América Latina
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de maio de 2004
Luiz Carlos Hauly 
A América Latina se livrou paulatinamente, nos últimos 20 anos, dos regimes militares. As garantias democráticas foram restabelecidas, pelo menos em tese, em todo o continente latino-americano, com exceção de Cuba, há mais de quatro décadas sob a tutela do ''comandante'' Fidel Castro. Embora previstas na Constituição, essas liberdades sofrem circunstancialmente restrições na Venezuela.
Essas garantias, porém, revelaram-se insuficientes para satisfazer as necessidades sociais do continente. Em 1990, os miseráveis eram 190 milhões na América Latina; dez anos depois, atingiam 209 milhões, numa população total de 496 milhões.
Essa deficiência provocou o descontentamento generalizado dos latino-americanos em relação ao regime democrático. Levantamento divulgado em 21 de abril pelas Nações Unidas mostra que 56,3% dos latino-americanos dão mais valor ao desenvolvimento econômico que à democracia e 54,7% apoiariam um governo autoritário que se revelasse capaz de resolver os problemas econômicos que afligem o continente.
Às dificuldades econômicas devem-se acrescentar, para se explicar o descrédito em relação à democracia, a pouca operância, ou ineficácia mesmo, em alguns casos, do Poder Executivo, a falta de representatividade do Legislativo e a distinção pouco nítida entre o público e o privado provocada pela influência do poder econômico sobre a política e os homens que a executam.
A frustração em relação à democracia constatada pela ONU não representa perigo iminente de os militares voltarem ao poder, mas é um sinal de alerta que deve ser considerado desde já pelos governos e pelas forças políticas de todo o continente, em conjunto e individualmente.
Em conjunto, os chefes de Estado e os partidos políticos latino-americanos deveriam buscar, respeitando-se as características e individualidades de cada país, o caminho que levasse ao desenvolvimento sustentável, com níveis de crescimento capazes de compensar a expansão demográfica. No plano individual, os governos e partidos políticos necessitam, com urgência, resgatar ou conquistar, conforme o caso, a credibilidade. Uma reforma política profunda e ampla seria o passo inicial e decisivo.
Se medidas corretivas não forem adotadas logo, e se seus resultados não forem sentidos em curto prazo pelas camadas mais desfavorecidas, a democracia poderá sofrer um abalo irreversível. E então, com a esperança soterrada, o futuro da América Latina poderá se tornar ainda mais sombrio que o seu passado.
LUIZ CARLOS HAULY é deputado federal pelo PSDB-PR


