O homem como ser social não passa de uma quimera plantada na mentalidade coletiva por uma minoria de ''pensadores'' que, ao longo de séculos, nos impingiu essa idiotice denominada, pomposamente, de ''sociedade humana''. Ela nunca existiu nem existe hoje. Viver em sociedade pressupõe igualdade de deveres e direitos, obedecidos e cumpridos por todos, sem exceção, o que leva à harmonia e à estabilidade.
Como podemos chamar de ''social'' um ser que mata outro de sua própria espécie sem o menor constrangimento e pelos motivos mais torpes? Como chamar de ''social'' um ser que, para atender a sua arrogância, ganância, inveja, desejo de poder político e econômico, não hesita em matar milhões de semelhantes em guerras estúpidas que nunca resultam em coisa nenhuma, a não ser destruição e morte, desgraça e desespero? O que restou de verdadeiramente bom para a ''sociedade humana'' das duas guerras mundiais? Nada além do enriquecimento dos vencedores e a desgraça dos perdedores: pobreza, fome, desespero.
O homem ''ser social'' é capaz de, para proteger seu ''capital'', usar de todo maquiavelismo possível, deixando milhões de outros homens famélicos, doentes, morrendo como moscas no mais completo abandono. O neocolonialismo (1815-1970), instituído pelos países europeus no Congresso de Viena, destruiu a África, a Ásia Menor, a Índia e parte da China, loteadas entre as poderosas nações europeias que alegavam, cretinamente, que iriam levar a ''civilização'' onde só havia a ''barbárie''. Este processo se constituiu no mais completo exemplo da estupidez, ganância e insensibilidade humana.
A ''sociedade humana'' compreende todas as pessoas do mundo, e não apenas aquelas dos países estáveis e ricos. O capital mundial está concentrado nas mãos de 20 países (G-20), enquanto os demais países, na sua maioria, sobrevivem na mais absoluta miséria. Guerras intermináveis, genocídios por razões étnicas, religiosas ou políticas, desigualdade socioeconômica, fome flagelando países inteiros. E, em todos estes casos, é o homem matando e aniquilando outros homens. Como podem chamar a isso de ''sociedade'', e ao homem de ''ser social''?
A vida humana em sociedade é um reflexo da própria natureza humana, que é ''encrenqueira e briguenta'' (John Locke), ''uma perpétua busca de poder que só acaba com a morte'' (Thomas Hobbes), com os homens sendo ''volúveis dissimuladores ansiosos para evitar o perigo e ambiciosos por lucro'' (Nicolau Maquiavel), vivendo numa condição em que ''todo homem é inimigo de todo homem'' onde ''há contínuo medo e perigo de morte violenta; e a vida dos homens, solitária, pobre, sórdida, brutal e curta'' (Thomas Hobbes). Como afirma Trasímaco: ''A justiça é o direito do mais forte''.
E mesmo a paz nada mais é do que um produto da violência implícita, um equilíbrio de terror, que nos faz lembrar o vaticínio sombrio de Winston Churchill: ''Pode ser que, por um processo de sublime ironia, tenhamos chegado a um estágio em que a segurança será o filho robusto do terror e a sobrevivência, a irmã gêmea da aniquilação''.
A sociedade é regida por normas morais e por leis que, se obedecidas, trazem a paz e a harmonia. Acreditar nisso é se candidatar ao posto de idiota maior. Se leis, preceitos morais e dogmas religiosos resolvessem alguma coisa, o mundo seria o paraíso, pois ao longo dos séculos milhões de normas, regras, dogmas e leis foram criados. Só haverá uma verdadeira ''sociedade humana'' se for estabelecida a igualdade social e econômica. O resto são apenas mentiras bem engendradas pelos que detêm o poder para justificar suas ações deletérias contra o próprio ser humano.
Aqui fica a lembrança de Plauto (254-184), em sua obra ''Asinaria'': ''Lupus est homo homini non homo'', simplificada por Thomas Hobbes (1588-1679): ''Homo homini lupus'' (''O homem é o lobo do homem'').
PAULO ANDRÉ CHENSO é médico e historiador em Londrina

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