ESPAÇO ABERTO - O governo Lula
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de outubro de 2003
René Ruschel 
Se há uma quase unanimidade entre os milhões de brasileiros é que, ao assumir o governo, o Partido dos Trabalhadores adotou uma prática oposta àquela contida em seus alfarrábios internos. Notadamente no que diz respeito à política econômica. A difícil questão neste momento é avaliar se tais medidas são boas ou ruins, afinal, qualquer analogia será com a administração tucana da era Fernando Henrique Cardoso. Além disso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está a um passo de concluir de seu mandato; o que convenhamos, é muito pouco tempo em relação aos oito anos de administração peessedebista.
Através da imprensa o ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o ex-presidente travam uma batalha verbal. O petista, após recomendar a FHC que cuidasse dos netos e de sua biblioteca, disse que Lula assumiu uma ''herança maldita'' e o sociólogo replicou que falta ao governo atual ''criatividade''. Aliás, a estratégia do PSDB como partido de oposição será apontar a dicotomia do PT no governo com o discurso do PT na oposição. Sabendo disso é que alguns líderes muito próximos de Lula, como o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci, se apressou em dizer que ''o PT não tem nenhum pudor de reconhecer que em muitas questões mudou, evoluiu e aprendeu com a experiência''.
Alguns pontos têm favorecido o governo petista. A capacidade de articulação política aliada ao carisma pessoal de Lula, tem sido fundamental nas negociações com o Congresso. Apesar da última pesquisa de opinião ter revelado que tanto a popularidade do governo como do presidente caíram, os números ainda são altos para garantir uma boa performance administrativa. As aprovações da reforma da Previdência e, digamos, o arremedo de reforma tributária, não deixam de ser um avanço. O controle da inflação, a queda do risco Brasil, o superávit na balança comercial são resultados que, se por si não resolvem nossas mazelas, não deixam de ser sintomáticos ao mercado de que o país não irá mergulhar no caos que muitos apregoavam.
O calcanhar de Aquiles do governo tem sido a falta de experiência - pra não dizer que em alguns casos beira a infantilidade - e a inoperância dos projetos sociais. Ou ambas, concomitantemente. O programa Fome Zero, por exemplo, criou uma expectativa muita além de sua capacidade em gerir resultados no curto prazo. Entretanto a questão mais grave a ser enfrentada, o desemprego, não foi sequer atenuada até o momento e Lula prometeu criar em quatro anos 10 milhões de novos postos de trabalho. Sem falar em segurança, saúde, educação, infra-estrutura...
Crucifixar o governo nestas alturas do campeonato é uma tarefa para os adversários políticos que vão aos ringues eleitorais em 2004 e não quando se pretende fazer uma análise isenta de paixões. No entanto, um fato é incontestável: a expectativa por mudanças estruturais que a sociedade exige, nasceu nos palanques petistas durante a campanha eleitoral. Assim, por enquanto, fica valendo o provérbio popular que diz ''quem pariu Mateus, que embale''.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


