ESPAÇO ABERTO - O entendimento, num lampejo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de setembro de 2004
Walmor Macarini 
Dimas, o bom que era ladrão. Crucificado ao lado de Jesus, compadeceu-se dele e nesse momento salvou-se, no sentido de que ingressava em outro estado de consciência. Ali revelou-se o fogo divino nele, a sua essência crística, o seu Eu Superior. Jesus ouviu-o mas sobretudo sentiu a essência do eu essencial de Dimas, e disse-lhe: ''Ainda hoje estarás comigo no reino dos céus''. Significando que ambos, ao libertar-se da agonia da cruz, logo estariam na plenitude da luz.
O evento remete para o entendimento de que as coisas da vida temporal têm pouca relevância se houver esse lampejo e o ingresso no estado da essência verdadeira; ou as mesmas coisas continuarão depois da morte física do indivíduo, até que se desprendam, e para estes vale a dolorosa verdade de que ''da vida tudo se leva'' se leva dores e necessidades físicas e emocionais, mágoas, estados de miséria ou de riqueza mesquinha. Esses males não se esvaem tão facilmente depois da falência do corpo temporal e ficam agregados ao corpo astral, ou seja, aquele imediatamente superior depois deste que vestimos.
As ''muitas moradas'' de que se referem as escrituras têm um pouco desse estado, significando as diferentes escaladas no caminho da ascensão ou do descenso. Tais condições nada mais são que estados de consciência, porque tanto no sentido de subir como do descer a situação se identifica com a de Dimas, que se era uma fora-da-lei segundo a legislação dos homens, num relance ingressou no seu estado puro e compadeceu-se da dor ''do justo'', como ele entendia Jesus, de quem ouvira dizer e sabia. Todos os ''pecados'' (entenda-se os desconhecimentos de Dimas-homem) lhe foram nesse momento perdoados.
Ele próprio perpetrou a ação do perdão pela simples sintonia com a verdade, que sempre esteve nele, porém adormecida. Salvação, portanto, não é livrar-se do ''fogo do inferno'' e ''entrar no céu'', mas livrar-se do obscurantismo, da ignorância acerca da realidade maior, e ingressar na liberdade do entendimento, no céu... Chegará o momento inevitável, aqui ou no depois daqui, de cada um redimir-se dos denominados malfeitos e a misericórdia divina proporcionará essa oportunidade, pela forma de revivências terrenas ou outras mas é certo que o mais perverso dos homens poderá, no último segundo de sua vida terrena, vislumbrar a amplidão da luz (leia-se o despertamento) e entrar nesse exato instante no reino dos céus. O que ele escolher fazer a partir de então, ou lhe for indicado fazer, esta será outra etapa e outra história. Muitos são bons homens, e isto é muito meritório, mas não são despertos. Enquanto não acordam, continuarão bons homens, porém ainda adormecidos.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


