Um dia deparei-me com a frase ‘‘não sei se educo para a vida ou para a virtude’’ (Sócrates, 470 A.C), e desde então, essas palavras têm me incomodado bastante, não só pelo peso realista que carrega em si, mas também pela sua atualidade. [Tem-se a impressão que foi escrita no jornal de hoje].
  Eu, há quase 20 anos leciono matemática, e a não aplicabilidade prática e imediata da maioria dos conteúdos que ensino me deixam imensamente angustiado. Sei que os conteúdos, queiram ou não, da forma com que a maioria de nós os expõem, são reprodutivos, são cumulativos, são divididos como gavetas em um imenso fichário, colocados, ‘‘tijolinho por tijolinho’’, para que possam, num momento oportuno, serem utilizados, seja de maneira prática ou abstrata.
  Num dia, próximo ao fatídico 11 de setembro de 2001, quando me adentrei à sala dos professores o assunto fervilhava, o que era óbvio devido à extensão do acontecido. Porém, o que mais me chamou a atenção foi o comentário de uma colega quanto à educação praticada no Afeganistão. Disse ela, com ênfase e com sentimento, que ia da indignação à pena: ‘‘Vocês viram como funciona o sistema educacional dos ‘Talibãs’? Eles ensinam as crianças, desde pequeninas, a lerem o Alcorão e a manusear armas de fogo! Que país é esse?’’
  Eu não resisti e disse: - Mas isso é que é educação de verdade. Foi como se tivesse caído um míssil dentro da sala. Alvoroço geral. Só não fui chamado de ‘‘santo’’. Passado o alarido, eu fiz uma pergunta, mais que contundente: - Lá, no Afeganistão, a escola tem um objetivo claro, definido, prático, aplicável, e a nossa? O que estamos ensinando? Pra quê? Quais os nossos objetivos? Qual a utilidade real do que o aluno está aprendendo?
  Não sou favorável a nenhum regime de exceção, muito menos aqueles, que em nome de Deus, instigam a violência, a discriminação, tirando o ser de cada um em prol a uma ideologia infundada e mal interpretada. Mas, sou obrigado a relembrar o velho e bom Sócrates: estamos ensinando para que: Para o trabalho? Para as ciências? Para a guerra? Para a moral? Ética? Civismo? Para quê? Para quê?
  Ainda falta o diálogo com nossos alunos, que é tão importante quanto à transmissão dos conteúdos propostos. O estimular para o pensamento crítico, questionador, político. O instigar para a ação. E principalmente, termos objetivos claros, verdadeiros. Pois acredito, que assim, e somente assim, sairemos da triste posição em que se encontra a nossa pobre educação no cenário mundial.
DAVRISON DE ABREU ANSELMO é professor em Ibaiti

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