ESPAÇO ABERTO - O ''dono do mundo''
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de janeiro de 2004
Estelio Feldman 
No pronunciamento constitucional que fez ante o Congresso norte-americano no início do ano, o presidente dos EUA, George W. Bush, provocou verdadeiro estupor. Com todas as letras, o governante americano assinalou que seu país tem o direito de atacar qualquer outro. Na verdade, isto já foi evidenciado pelo próprio Bush quando atacou o Afeganistão e o Iraque. O primeiro porque teria sido de lá que se planejou o 11 de setembro e o outro porque teria ''armas de destruição em massa''.
Juridicamente, nem o primeiro ataque pode ser justificado. Já o segundo, então, contra o Iraque, simbolizou um ato totalmente ilegal, por mais que se critique Saddam. A diferença entre um Estado organizado e um grupo de terroristas ou desordeiros é justamente esta. Os que fazem o terror realizam o que querem. São os marginais do mundo. Não obedecem à lei. Os Estados, não. Têm leis e as seguem. Contra os marginais ou o terror, a lei! Não é fácil, mas se assim não for, estaremos sancionando a lei da selva, o que não é bom para países ou pessoas.
Acontece que existe uma nova ordem mundial. No tempo da ''guerra fria'', no chamado ''equilíbrio do terror'', o Oriente temia o Ocidente e vice-versa. Algumas vezes o mundo esteve à beira de um confronto entre os dois lados. Prevaleceu, porém, o bom-senso e o mundo superou tudo. De repente, o bloco oriental esboroou. Sobrou então só um, não um bloco mas um país, os Estados Unidos. Ninguém duvida que, de fato, aquela nação é a mais poderosa do mundo, no momento. E isto faz com que George W. Bush resolva desprezar as Nações Unidas, chutar o balde e garantir o que disse ao Congresso que ataca quem quiser, quando quiser, onde quiser, claro que em defesa dos seus companheiros americanos.
Como governante americano, ele de fato tem a obrigação de defender seu país. O mesmo, entretanto, se pode dizer de todos os outros, Lula, Chávez, Putin. Todos têm este tipo de dever. Por outro lado, após a II Guerra Mundial, os homens de boa vontade e inteligência criaram um tipo de Parlamento mundial, a ONU, que tenta funcionar como um órgão que busca entendimento para evitar crises ou guerras. Os países organizados assinaram a Carta da ONU, EUA inclusive. Mas Bush considera que, agora, está acima de tudo. Não levou a ONU em conta, ao invadir o Iraque. E garante agora que não o fará de novo, em qualquer tipo de circunstância.
Tenta ser o ''dono do mundo''. Pode ser um ''denorex'', aquele que parece mas não é. Os Estados Unidos não têm o direito de atacar quem queiram. Pior é que nem percebem que, na verdade, quando atacam também não estão ganhando. Há anos, atacaram a Coréia que acabou dividida. Depois foram ao Vietnã e levaram uma surra. Agora atacam o Iraque. Ganharam, em termos. A resistência e qualquer um tem o direito de se defender do invasor não permite dizer que ganharam.
De qualquer modo, esta pretensão de Bush assusta porque ele pode fazer o que americanos e soviéticos não conseguiram nos quase 50 anos de confronto: levar o mundo a uma guerra sem limites.
ESTELIO FELDMAN é jornalista da Folha de Londrina


