ESPAÇO ABERTO - O direito de ser cruel
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de abril de 2009
Nelio Roberto dos Reis 
Ao nos depararmos com o texto ''O Menestrel'', de Willian Shakespeare, encontramos: ''Você tem o direito de sentir raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel''. O mundo me prefere com dois braços e duas pernas, mas para ser humano não posso perder a minha força de vontade, a minha dignidade, e o meu brio. A estrutura atual do país tem a possibilidade de um encaixe perfeito com os brasileiros, mas quebra isso quando tira deles o direito de lutar para conseguir sobreviver, de buscar suas conquistas por seus próprios meios.
Quando um filho recebe tudo do pai, ele não se fortalece, não aprimora o seu caráter nem a sua força de vontade, porque não precisa buscar ou trabalhar por nada. Esse pai nada mais é do que alguém cruel que tira do filho o direito de sair da sua sombra e procurar o seu caminho. Perdeu a necessidade de conquistas necessárias para a formação do caráter de quem cresce. Essa atitude de superproteção favorece a formação de um ser humano fraco, sem ideal, sem esperanças e que não sente a necessidade de lutar pelo seu sucesso. Isso é muito básico.
O governo federal ao distribuir bolsa família e cesta básica direciona o incentivo ao ostracismo e a uma forma vesga de pescar sem ter que ir ao rio. Isto é, trazem o peixe ao pescador, como escreveu em uma revista o advogado de Brasília, Júlio Fortes. Como exemplo, ele cita uma situação ocorrida em Goiás onde, por meio de uma concessão pública, uma empresa foi autorizada a construir uma usina hidrelétrica e ficou obrigada a indenizar os proprietários das terras alagadas. Contando com a inércia das autoridades, a empresa deixou cerca de mil famílias sem projeto de reassentamento. Durante um período de dois anos o governo federal mandava mensalmente cestas básicas para essas mil famílias, a maioria constituída de pessoas bem de saúde que não viviam na miséria. Enquanto durou o período, esse pessoal ficava quase 24 horas aguardando a concessão desses projetos de reassentamento e nada faziam: não trabalhavam, passaram a viver comendo às custas do governo federal, que remediava um erro de um grupo particular.
É óbvio que não falamos daqueles que vivem em regiões de seca, onde não chove e agricultores não têm como trabalhar, ou ainda dos pobres miseráveis, doentes e daqueles sem oportunidades. Falamos de milhares de pilantras, fortes, gordos que recebem vergonhosamente esses benefícios. A atitude dos doadores de tantas bolsas pode ter um fim maldoso e, com certeza, querem algo em troca. O que seria?
Se essas atitudes continuarem, estaremos tirando o que uma geração tem de mais nobre: a motivação para buscar e crescer. Isso é justo? A Groenlândia, tão pouco povoada, recebe 430 milhões de euros por ano em ajuda da Dinamarca e deputados reclamam que essa ligação os mantêm com a ideia de que são incapazes de sobreviver pelos próprios meios. As tentativas de suicídio são três vezes mais altas do que na Dinamarca, altíssimos índices de alcoolismo e 10% dos jovens groenlandeses foram vítimas de abuso sexual. Muitos destes problemas tiveram origem nos anos de 1960, época em que a Dinamarca trouxe o estado assistencialista para a Groenlândia. Os jovens de lá se sentem presos a um lugar sem futuro porque não precisam lutar por nada. Muitos se suicidam pela falta de esperança.
Em tempo: os groenlandeses estão cansados de escândalos, dos altos salários dos políticos, dos apartamentos financiados pelo governo. Mas estes problemas nós não temos por aqui. Certo? Ou temos? Um Estado que prepara toda uma geração para cultivar o ócio para fins duvidáveis de credibilidade está fadada a correr um sério risco da desilusão e do fracasso. Seja ela o Brasil ou a Groenlândia.
NELIO ROBERTO DOS REIS é professor na Universidade Estadual de Londrina


