ESPAÇO ABERTO - O direito a nascer ou a viver
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de agosto de 2004
Rafael Solano Duran 
Cada vez mais pessoas vêm questionando o futuro da humanidade em face do momento histórico em que vivemos. Para muitos, o que está acontecendo é simplesmente o fim do condicionamento cultural de uma civilização, no seu tríplice aspecto: econômico, político e religioso. Para outros, trata-se da expressão de maior liberdade e realização da espécie humana, liberada dos entraves do condicionamento e destinada a desestruturar todos os esquemas que foram privilegiados durante séculos, gerando controvérsia entre ciência e fé, política e estados, raças e línguas, etc. Mas de todo esse conjunto, emerge um tema dos mais polêmicos e desafiadores: o direito a nascer e, o que é mais importante, o direito a continuar vivendo.
Os problemas do aborto, da gravidez interrompida, da criança anencefálica (sem cérebro), da experiência com embriões, da mãe de aluguel, da fecundação à clonagem, e tantos outros que afligem diariamente o coração do ser humano, criam um constante desafio quanto à postura correta diante do mistério maior, que é a vida.
Não foi a declaração de 13 de maio de 2001, quando o ex-presidente americano Bill Clinton noticiou à humanidade a descoberta do DNA, nem tampouco a liberalização da experiência com embriões, por parte do Instituto Médico de Londres, o passo decisivo em defesa da vida e da dignidade humanas. Este foi dado pelo homem e pela mulher, como pessoas, quando se perguntaram as razões últimas de sua vida e o respeito que lhes cabem na hora de se decidir sobre a própria existência ou de outros.
Uma das encíclicas menos conhecidas pelos católicos, aliás por muitos casais, é a Envagelium Vitae, o ''Evangelho da Vida''. Nessa carta, o Papa João Paulo II, partindo do texto do Gênesis, capítulo 4, daquilo que poderíamos chamar de a ''raiz'' da violência contra a vida, plasmou de forma magnífica o valor incomparável da existência humana, manifestação gloriosa de toda a criação. Ao apresentar o núcleo da sua missão redentora, Jesus diz: ''Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância''. (João 10,10). Esta declaração de Jesus permeia a realidade de cada pessoa, razão pela qual ninguém tem o direito de atentar contra a vida de outrem, muito menos contra a vida de um inocente.
Diante da pergunta: Que fizeste com a vida de teu irmão?, qual vai ser a nossa resposta? Nossa atenção se concentra de modo particular nos chamados atentados relativos à vida nascente e terminal. O primeiro e mais comum é o aborto. Qual seria a resposta da mãe ou do pai, que tomou a decisão de assassinar uma criatura indefesa, em virtude da descoberta de sua malformação ainda no ventre materno? Não tenho o direito de existir, mesmo que com limitações corporais? Não tenho o direito a ser no mundo com uma corporeidade limitada? Quanto egoísmo no coração daqueles que pretendem simplesmente uma ''beleza'' corpórea, exterior. Tudo isso revela a triste realidade da conhecida manipulação: o homem de ciência se julga no direito de agredir com violência a quem não tem a possibilidade de se comunicar, de se fazer sentir.
PADRE RAFAEL SOLANO DURAN é doutor em Teologia Moral e Ética Pontifícia Universitá Gregoriana de Roma, professor do Instituto Teológico Paulo VI de Londrina e reitor do Seminário Propedêutico São José de Londrina


