ESPAÇO ABERTO - O ''dá cá não toma lá'' no Congresso
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2005
Emerson Costa Lemes 
Acordamos ontem com uma das notícias mais curiosas dos últimos anos políticos: o novo presidente da Câmara dos Deputados não faz parte da maior bancada. Mais: ele é de um partido que, se não faz oposição ao governo, pelo menos tem uma ideologia (?) totalmente contrária.
Estou falando, claro, de Severino Cavalcanti. O homem, hoje com 74 anos, começou sua carreira política pela UDN, que fazia oposição a Getúlio Vargas. Logo após o início da ditadura militar, ele foi para a Arena, agremiação dos militares. A Arena se transformou em PDS, pra onde ele foi. Depois, foi para o PDC, passou pelo PL, pelo PPR e pelo PFL. Finalmente se transferiu para o PPB - atual PP. Curiosamente, sempre partidos de direita.
O histórico do deputado não vem ao caso. O que chama, mesmo, a atenção é uma sequência de fatos surpreendentes: 1) pela primeira vez na história a maior bancada não conseguir fazer o presidente; 2) Esta ''maior bancada'' é formada pela base de apoio ao presidente da República; 3) O principal partido desta base, o PT, tinha dois candidatos: um oficial, e outro rebelde - inclusive, ameaçado de exclusão; 4) O governo negociou tudo o que pôde, liberando até a ''chave do cofre'' para conseguir eleger seu candidato - o oficial. Pois é. Não deu. Os deputados se aproveitaram das benesses oferecidas pelo governo, mas votaram em outro candidato.
No discurso de posse - vi parcialmente - ele comentou ter a mesma origem humilde - e até o mesmo Estado (Pernambuco) - do presidente Lula. Disse que não tem muito estudo, mas que foi à Câmara para aprender. No entanto, sua trajetória política demonstra uma posição antagônica àquela defendida pela Presidência. Afinal, temos um presidente que se diz de esquerda (?), e agora o terceiro homem na linha sucessória tem uma carreira política ligada aos liberais da direita.
É bom lembrar que na ausência do presidente e de seu vice, quem assume a Presidência é o presidente da Câmara. O último postulante do cargo, deputado João Paulo Cunha (PT), teve o prazer de assumir esta cadeira. Além disto, a agenda da Câmara está nas mãos do presidente: ele define os projetos que serão discutidos no plenário, a prioridade das atividades, o que será resolvido em regime de urgência, o que será engavetado...
Ah, na campanha, Cavalcanti prometeu lutar por melhores salários para os deputados... pode? O povo morrendo com R$ 260 e os deputados federais elegendo um presidente da Câmara que vai tentar dar-lhes mais aumento de salários. A que ponto chegamos!
EMERSON COSTA LEMES é contador com especialização em Direito do Trabalho e Previdenciário em Londrina


