Quando um pobre pratica um delito todos desejam uma pena exemplar no menor espaço de tempo possível, pois criminoso pobre sempre representa um enorme perigo para a sociedade. Já o criminoso rico agiu sob violenta emoção, deve ser internado. Imaginemos que no triste episódio em Londrina, ao invés de um rico diretor suspeito de atos irregulares fosse o porteiro da empresa que revoltado com o não pagamento de seus direitos trabalhistas, num momento de fúria, atirasse várias vezes contra o patrão indefeso. Imaginemos que no dia seguinte o pobre porteiro se dirigisse ao fórum para se apresentar diretamente a um juiz e efetuar a entrega da arma. Será que o juiz o receberia? Será que não seria acionada a Polícia Militar para escoltar o perigoso bandido até a delegacia mais próxima? Será que o juiz designaria um funcionário para entregar a arma na delegacia e concederia ao porteiro um prazo de cinco dias para marcar uma consulta pelo SUS?

Duvido! Pobre é pobre e a sociedade o odeia, seja ele branco ou negro. Mas e agora? Como solucionar este dilema? Um pobre matar outro pobre é normal. Um pobre matar um rico é revoltante. Um rico matar um pobre é compreensível, afinal a aparência andrajosa do pobre já ensejaria uma ''legítima defesa'', mas um rico matar outro rico é muito confuso. A questão crucial das autoridades que não se comportam como autoridades é como agradar os familiares do rico morto e ao mesmo tempo não desagradar o rico criminoso?

Nota-se a confusão até nos meios de comunicação. Não ouvimos os tradicionais gritos de vagabundo e assassino. Não vimos cenas de pessoas com cartazes repletos de erros ortográficos fazendo passeatas e clamando por justiça. Nada! Tudo isso é reservado somente a criminosos pobres, muitas vezes analfabetos e que, em sua maioria, são defendidos por advogados omissos e inescrupulosos que deixam a imprensa tripudiar em cima dos direitos de seus clientes aos olhos complacentes de autoridades que, embora não admitam publicamente, agem como se as garantias individuais dependessem do saldo bancário.

No futuro, gostaria de ver se esse ilustre senhor, após ser preso, será apresentado à imprensa algemado na frente dos símbolos da polícia judiciária ou da Polícia Militar, como fazem diariamente com inúmeros pobres que tiveram a infelicidade de praticar um crime. O delegado revoltou-se com a atitude do advogado quando na verdade deveria indignar-se com o comportamento do juiz.

O Poder Judiciário, Polícia, imprensa e governo vivem num mundo de fantasias. Nossa democracia continuará sendo um conto de fadas enquanto não tivermos governos que assumam seu papel e, principalmente, autoridades que tenham consciência de que não existem para proteger e servir aos ricos e poderosos, mas para promover a verdadeira justiça.

CLÁUDIO MARQUES DA SILVA é delegado de Polícia Regional da 27 Delegacia Regional de Polícia de Paranacity (PR)

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