ESPAÇO ABERTO - O caso Serginho (São Caetano)
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de novembro de 2004
Jossan Batistute 
É incrível como muitas vezes a sociedade pode ser desvirtuada de seus valores por pessoas sensacionalistas. O caso Serginho (chamado batalhador e até de herói por parte da imprensa) é o mais digno exemplo deste erro. Os meios de comunicação de massa criaram no drama do zagueiro do São Caetano uma verdadeira distorção no foco das atenções. É louvável que se faça de tudo para evitar novos acontecimentos como este, eis que toda vida humana é de incomparável importância. Ocorre que na ânsia pela elevação nos números da audiência, os canais de TV abusaram de seu direito e dever.
A imagem do Serginho morto em campo, com os médicos fazendo massagem cardíaca para reanimá-lo, mais o drama dos demais jogadores clamando pela ambulância foram intensamente expostos. Fizeram de uma morte uma verdadeira comoção nacional. Um literal abuso, um absurdo. Depois, ainda usaram de seus atos para novos focos de audiência, quando entrevistavam os amigos do Serginho que choravam e ressaltavam que era difícil para amigos e parentes ver a todo momento as imagens da dor.
Onde já se viu chamar um cidadão comum quanto eu e você de herói simplesmente porque morreu? Concordo que ele morreu trabalhando e isto é muito digno. Entretanto, seu trabalho ajudava apenas a ele e seus particulares e não há heroísmo como foi tentado transmitir, pelo contrário até. Afinal, para todos restou clara a teimosia em não aceitar as prescrições médicas e se afastar das atividades físicas.
E os trabalhadores que morrem na defesa do próximo que importância está sendo dada a estes fatos? Onde ficam nas manchetes televisivas as mortes de policiais que diariamente na defesa de todos nós embatem por este Brasil contra traficantes, ladrões e outros criminosos? Policiais civis e militares literalmente dão sua vida pelos péssimos salários na defesa de uma sociedade e de um Estado que não dão a contraprestação necessária para o trabalho digno e seguro. Quantos se lembram dos poucos segundos de destaque dados às mortes de outros nobres trabalhadores como os bombeiros que sucumbem nas praias, rios e na luta contra o fogo? Ou então dos muitos pedreiros que laboram sem a mínima garantia de segurança no trabalho morrem de acidentes?
Vivemos numa sociedade monoteísta. Noutra época, se um cidadão sem algum relevante mérito fosse tachado de herói, os outros trabalhadores do Brasil que morrem na defesa de terceiros, no interesse dos próximos, certamente seriam aclamados como deuses. Serginho é herói sim, como são todos os pais e mães para suas famílias, nada mais.
JOSSAN BATISTUTE é advogado em Londrina


