Já há alguns anos venho, juntamente com uma equipe de pesquisadores, me debruçando sobre a problemática do Patrimônio Histórico e Cultural. Dentre os principais conceitos trabalhados estão o de memória coletiva e identidades, pois entendemos que não podemos pensar o patrimônio de forma isolada, mas como elemento que tem significados, por vezes distintos, para a população. Não é rara a tentativa de imposição de patrimônios, o que pode levar ao não aceitamento, gerando rejeição ou mesmo vandalismo.

Outra questão importante é que o patrimônio não tem idade: nem sempre o que é significativo para uma comunidade está vinculado a coisas ou manifestações velhas ou tradicionais. Esta reflexão é importante, pois é comum a ideia de que Londrina é uma cidade nova e assim não possui patrimônio. Ledo engano dos defensores de um modernismo inconsequente que relegam a segundo plano as vivências, práticas e manifestações. Claro que o patrimônio, ao mesmo tempo em que é protegido, salvaguardado ou tombado, renova-se e se transforma, assim como as pessoas, as culturas e as cidades.

Dentre os inúmeros exemplos de espaços que podem ser considerados como patrimônio cultural está o Calçadão. Assim como a Praça Rocha Pombo e o atual Museu de Artes de Londrina (MAL), o Calçadão foi e é palco de vivências múltiplas, de trocas de experiências e de disputa. Difícil um londrinense que não tenha uma lembrança, uma referência do Calçadão, que já teve cinema e loja de departamentos, onde hoje é comércio popular; que teve camelôs e artesãos na Praça Marechal Floriano, revitalizada; que teve um coreto construído e demolido e que tem parte de seu entorno marcado pela Catedral, que faz do Calçadão uma ''reta em curva''. Por estas características, foi inventariado como patrimônio cultural londrinense, como bem urbano-paisagístico. E um dos motivos que fazem do espaço um patrimônio da cidade é seu piso em petit pavet que, juntamente com uma arquitetura com características próprias, garante ao Calçadão uma paisagem única que vem marcando a memória do londrinense.

Fiquei entusiasmado quando ouvi rumores de que havia um projeto para retirada de parte da publicidade do Centro de Londrina, o que exporia fachadas hoje escondidas atrás de letreiros. Porém, fiquei preocupado quando soube que há um outro projeto que prevê a troca do piso petit pavet por pavers. O piso é uma marca do Calçadão, que fortalece a memória e a identidade do londrinense que, há anos, convive com o desenho simétrico em duas cores. Assim como eu o fiz, até hoje crianças brincam de andar ''apenas no preto'' ou ''no branco'', ou vivenciamos uma curiosidade em torno do significado do desenho ali exposto. E, se virmos apenas esta imagem na televisão ou internet, saberemos de imediato qual cidade é: Londrina.

O Calçadão é um dos espaços mais democráticos e mais visitados da cidade, e o piso faz parte dele, assim como no calçadão da praia de Ipanema e em praças europeias, o que nos leva à seguinte pergunta: não valeria a pena um estudo mais aprofundado, buscando encontrar alternativas para o problema? Será que o novo piso realmente é o mais adequado, valendo a pena abrir mão do significado histórico e cultural que o atual proporciona? Além disto, há o aspecto arquitetônico, já que o projeto é de autoria de Jaime Lerner e o desenho do piso de Hely Brêtas, servidor aposentado da Prefeitura de Londrina. Ou seja, assim como não mexemos em trabalhos projetados por Vilanova Artigas, devemos evitar alterar o projeto de arquitetos com grande identificação com a cidade. O Calçadão, além do vínculo afetivo com a população, possui caráter de excepcionalidade a ser considerado.

Acredito que a população se sensibilizará com o caso. Londrina se preocupa com o patrimônio e não deixará que parte dele seja dilapidado sem antes esgotar as possibilidades de resolução de seus problemas pontuais.

LEANDRO HENRIQUE MAGALHÃES é professor do Centro Universitário Filadélfia de Londrina (UniFil)


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