Nas democracias modernas, em países com base no sistema de representação social e em franco processo de desenvolvimento, quatro anos de governo se comparam, cada vez mais, a uma luta de pesos pesados com duração de 12 rounds. Cada trimestre de um ano equivale a um round. É o caso do Brasil, onde três meses podem ser considerados prazo mais que suficiente para os atores políticos e sociais alargarem ou diminuírem forças, mantendo-se estáveis ou oscilando na balança da credibilidade.
Aceitando-se essa equação, podemos dizer que o governo Lula está no meio de seu 5º round. Nos quatro anteriores, mesmo sem derrubar o adversário, manteve uma performance equilibrada, ganhando por pontos a confiança social, apesar de decepcionar os milhares de espectadores que esperavam uma vitória por nocaute logo nos primeiros minutos de luta. Para surpresa geral, o governo acaba de ser nocauteado nesse meio do quinto trimestre. O affaire Waldomiro Diniz atinge ''a cara ética'' que o PT modelou em sua identidade, pega por tabela o capitão da equipe, José Dirceu, e respinga na imagem do próprio governo.
A questão que agora se coloca é: o escândalo comandado por alto assessor com assento no Palácio do Planalto terá repercussão no quadro político-eleitoral? A resposta é sim. Por mais que a administração federal tente criar um escudo de proteção ao Governo, desviando o tiroteio que já começa a atingir as vidraças do edifício ético que o PT procurou construir, ao longo de seus 24 anos de vida, será quase impossível manter sem fissuras a imagem asséptica da administração lulista.
Pouco interessa se a negociação de propina feita por Waldomiro foi antes do governo Lula. O fato é que o corrupto era o braço direito de Dirceu no núcleo central do poder. A opinião pública não faz distinção entre a corrupção de ontem e a personagem de hoje. Ambos fazem parte da mesma tessitura. Nesse caso, a equalização entre partidos e governos se estabelece no sistema de formação da opinião pública, gerando junto aos contingentes que votaram em Lula um conjunto de dissonâncias e reversão de expectativas.
A dissonância ocorre todas as vezes em que se estabelece um processo de dúvidas e interrogações, decorrentes de denúncias feitas pelos atores sociais e políticos. Quando a denúncia e o escândalo são massificados pelos meios de comunicação, eles acabam maculando a esfera que abriga os atores e patrocinadores da peça, no caso, o governo Lula. Não há meio termo. E se Lula, o PT e seus participantes fincaram raízes no terreno da ética e da assepsia das práticas políticas, o impacto de casos escandalosos assume maior dimensão. Mesmo sem CPI, o fato é que as oposições já ganharam um discurso para ilustrar os programas eleitorais da campanha de outubro.
Junte-se a esse núcleo explosivo de discurso, a bateria de abordagens voltadas para as grandes carências sociais, e teremos uma idéia da contundência da campanha eleitoral. Será pouco provável que o governo tenha munição suficiente para rebater um discurso oposicionista. Mas as campanhas serão municipalizadas, argumentarão alguns. Sem dúvida, as demandas da micropolítica suplantarão os discursos mais genéricos, principalmente nas cidades pequenas. Aí, o eleitor estará preocupado com a escola perto de casa, o transporte, a creche, o posto de saúde, a estrada esburacada, o remédio gratuito, o alimento barato. Nas cidades grandes e nas capitais, a federalização das campanhas ocorrerá, na esteira da aprovação/desaprovação aos programas federais e ainda no eco da repercussão do pivô do escândalo, Waldomiro. Queira ou não José Genoíno, vão chamá-lo Waldomiro do PT.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da Universidade de São Paulo e consultor político

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