Espaço Aberto - O apocalipse segundo Piketty
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Luís Miguel Luzio dos Santos 
Ainda é muito forte a tese que defende que se os ricos ficarem mais ricos inevitavelmente a abundância chegará a todos, como num efeito em cascata em que quanto maior for o volume de riqueza acumulada no topo, maior o seu transbordamento para a base. Contudo, o que é ideologicamente repisado, na prática nunca ocorre, haja vista, que um dos períodos mais prósperos da história econômica brasileira, os anos de 1970, foram marcados pelo agravamento da pobreza e da concentração de renda, sob o lema "Vamos fazer o bolo crescer para depois dividi-lo", o que nunca ocorreu. Algo semelhante acontece em praticamente todo o mundo e é particularmente evidente nos países do médio oriente, onde independentemente do preço e da riqueza gerada pelo petróleo, a pobreza não se altera.
Foi publicado recentemente o livro " O capital no século 21" do economista Francês Thomas Piketty, que apresenta um amplo e profundo estudo resultado de mais de 15 anos de pesquisas em 20 países do mundo e que analisou a distribuição de renda ao longo do tempo. A conclusão é que o crescimento das economias capitalistas nas últimas décadas não foi acompanhado por uma distribuição de renda à altura, em virtude das taxas de retorno sobre os ativos seres superiores ao ritmo do crescimento econômico, acelerando o processo de concentração de riqueza e ameaçando a própria democracia. Hoje nos EUA os 10% mais ricos detêm aproximadamente 65% do total da riqueza nacional, contabilizada em imóveis, ações, títulos públicos e outros ativos financeiros.
Essa realidade é particularmente evidente nas sociedades tradicionais, onde os grandes proprietários vivem da renda patrimonial, sem produzir nada. Nos países mais prósperos, a riqueza da parcela de 1% da população avança três vezes mais rápido que o crescimento do produto interno bruto (PIB). Nessa situação, se uma economia crescer a taxas de 2% ao ano, mas os ganhos sobre capital como investimentos, aluguéis ou lucros tiverem rendimentos de 5% ou 6% ao ano, as desigualdades entre capital e trabalho só aumentarão.
Além da transmissão de herança ou retorno sobre investimentos, outra explicação trazida por Piketty sobre a aceleração da concentração de renda nos últimos 30 a 40 anos é decorrente dos super-salários dos executivos de grandes empresas. Há um descolamento entre mérito e ganhos, já que em grande parte os rendimentos são definidos pelos próprios gestores, sem relação direta com o desempenho da empresa. Essas iniquidades foram alimentadas pelo corte de impostos sobre os mais ricos promovida pelos governos, especialmente o americano a partir dos anos de 1980.
Ao se analisar a história econômica dos últimos cem anos percebe-se que parte do crescimento do período se deve à capacidade de ampliar a base de consumidores e por consequência de distribuir renda. Haja vista, que a partir de um certo patamar de renda, esta não se converte integralmente em consumo - mas serve à especulação. Ninguém por mais renda que possua compra geladeiras ou automóveis ou qualquer outro bem indefinidamente. A expansão econômica só poderá ocorrer de fato por meio da ampliação da classe média.
O autor revela em sua pesquisa que os períodos em que a economia foi mais desregulada coincidem com o aumento das desigualdades e, em sentido inverso, os momentos de maior regulação, como os anos de 1940 a 1970, foram os que garantiram melhor distribuição de renda. Há um gigantesco descompasso entre os mecanismos de acumulação e os de redistribuição de renda e caso não haja nenhum tipo de intervenção, o mercado por si só é incapaz de distribuir adequadamente a riqueza coletivamente gerada, o que acabará por provocar um colapso sistêmico.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é economista em Londrina
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