Anteu, um gigante humano, daqueles que guerreava com os deuses, extraía a misteriosa força com que derrotava seus adversários do contato com sua mãe, Géia, deusa da Terra. Hércules, ao descobrir seu segredo, suspendeu-o no ar, impedindo que tocasse o solo. Longe da terra, as forças de Anteu esvaíram-se e Hércules, enfim, o derrotou.
Como no mito grego, ao distanciar-se da natureza a espécie humana se enfraquece. Pior: cada vez mais alheia ao ambiente natural, acaba por enfraquecer a própria natureza.
Não é demais lembrar que a temperatura média da Terra tem se sujeitado a gases, cuja maior liberação depende de atividades humanas. O efeito estufa, causado pelo homem, tem efeitos sobre o clima. Faz com que se alternem períodos de secas, que trazem a fome, e inundações, que trazem a destruição.
Nos últimos cem anos, o Paraná sacrificou 80% de suas florestas. Sem grande parte de sua cobertura original, a velocidade dos ventos no Estado foi alterada, e como ela a umidade do ar, a luminosidade, a temperatura; enfim, o microclima de milhares de pequenas localidades. Sem a cobertura vegetal, o solo se aqueceu sacrificando a vida de bactérias, fungos e outros seres que auxiliam a vida. Sem esta cobertura florestal, o vento e a chuva levaram com mais facilidade a terra fértil para dentro dos rios, assoreando-os.
Hoje, todos os rios estão com um grau maior ou menor de poluição por agrotóxicos, esgoto doméstico e hospitalar, metais pesados e lixo. Há no Estado 180 lixões a céu aberto. Eles contaminam o solo, o ar e infectam insetos que transmitirão doenças à população. O Paraná é o vice-campeão brasileiro em tráfico de animais silvestres. Também detém este triste posto quando se trata do uso de agrotóxicos.
Desta forma, com ações estranhas e hostis à natureza, nós também perdemos boa parte da rica biodiversidade que o Paraná levou bilhões de anos para criar e equilibrar. A perda da biodiversidade afeta a produtividade. Quanto maior a variabilidade de espécies, maior a estabilidade e produtividade de um ecossistema.
Apesar de todos estes danos - que enfraquecem a Terra e nos enfraquecem também - esta forma de agir nos dá a falsa impressão de que estamos no controle. A falsa impressão de que progredimos a cada dia. Por isso, nos fazem pensar que bonito é ser moderno; feio é ser natural.
Mas como pensar e agir diferente? Como reaproximar Anteu de sua mãe Géia? Uma das formas é deixarmos de ver a natureza simplesmente como algo a nos servir. Deixarmos de encarar a natureza como algo a ser transformado, algo a ser controlado, algo a ser vencido. Pois, ao subjugar a natureza, entramos em litígio com ela. A degradação é mera consequência.
O correto são ações que nos colocam de acordo com a natureza, não contra ela. Neste dia 5, comemoramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. Uma feliz oportunidade para refletir. E começar a agir. Parece pouco, mas a vida de milhões de espécies depende exclusivamente das opções humanas. Talvez a espécie humana ainda possa ser reconhecida não pelo que construiu e sim pelo que se recusou a destruir.
LUIZ EDUARDO CHEIDA é secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná

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