ESPAÇO ABERTO - Nos cinemas, uma aula de afeto e sexualidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de abril de 2004
Márcio Dantas de Menezes 
''Alguém tem que ceder'', comédia romântica dirigida por Nancy Meyers e tendo à frente do elenco a dupla Jack Nicholson e Diane Keaton, permite várias leituras, todas de primordial interesse para o relacionamento afetivo entre homens e mulheres, em especial os que já estão na terceira idade - ou na melhor idade, para usar o eufemismo habitual.
O personagem de Nicholson é um solteirão de 63 anos e ainda com muita lenha pra queimar, que só gosta de se relacionar com mulheres jovens (de menos de 30 anos, como ele mesmo define) e que, por uma série de circunstâncias, acaba por conhecer a mãe da sua namorada atual em condições pouco habituais. A relação com a jovem namorada naufraga e Nicholson e Diane Keaton (a mãe) acabam por iniciar um tumultuado relacionamento que, de início, nada tem de afetivo ou amoroso, muito menos sexual, já que Nicholson, vitimado por um enfarte, começa a ter de encarar a morte como uma possibilidade já não remota.
Esse início de relacionamento tem diversos ícones ou paradigmas, sendo dois deles reveladores do ânimo do galã em relação à sua ex-futura sogra: o momento em que dá de cara acidentalmente com Diane completamente nua e esboça esgares de horror acompanhados de gritos igualmente depreciativos; o outro é quando, estatelado no chão pelo enfarte, percebe que Diane vai lhe aplicar uma respiração boca a boca, que ele só permite com ressalvas, mesmo tendo como alternativa ser levado pela morte.
Diane, que estava há anos sem ter um relacionamento amoroso, acaba por conhecer um jovem médico (que trata de Nicholson) que se declara fã de seu trabalho como escritora e teatróloga, dando-lhe uma série de cantadas que acabam por atingir o alvo, tornando-se seu namorado, mas só depois dela própria ter tido um pequeno romance com Nicholson, pleno de simbolismos, a começar dela pedindo-lhe para cortar a indefectível blusa de gola alta ou rolê, do modelo popularizado pela Cacharrel. Até aí ela se dera ao direito de ter sexo pelo sexo, sem maiores comprometimentos, tal como Nicholson que, aliás, usava Viagra às escondidas, só revelando seu ''segredo'' diante da iminência da medicação lhe provocar a morte se fosse administrada com outro remédio no hospital, logo após o enfarte.
O cortar a blusa de Diane é revelador do processo mental que encontramos no dia-a-dia de nosso trabalho clínico com mulheres que já chegaram à menopausa: primeiro, elas têm de se sentir amadas pela cabeça, de forma cerebral e que respeite sua condição de ser humano vivido e experiente; depois, quando elas decidem abrir os braços - para receber o amor, a ternura, o afeto; para só depois irem às últimas consequências, partindo para o ato sexual que, aí sim, tende a ser prazeroso, completo e repleto de felicidade.
É importante ainda ressaltar o papel do Viagra e de outros indutores de ereção para os homens da terceira idade, o que só vem reforçar a necessidade de se liberar a produção, no prazo mais rápido possível, por parte das autoridades, de genéricos a baixo preço, democratizando-se assim o sexo, ou seja, sexo para todos, em especial para os da terceira idade, cujas necessidades emocionais têm sido tão ou mais negligenciadas do que suas necessidades econômicas.
MÁRCIO DANTAS DE MENEZES é cirurgião vascular em Londrina e presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Sexual


