Quando surge a curiosidade sobre o que é ''vida sexual normal'', invariavelmente mulheres e homens (principalmente) estão ansiosos para saber qual a frequência de relações sexuais considerada normal, como se houvesse um campeonato nacional classificatório para a grande olimpíada mundial dos sexólatras, com o direito ao cinturão da categoria dos pesos pesados em ginástica sexual.
Há uma desconfortável impressão, passada pela mídia, de que todo mundo está fazendo mais sexo do que eu, o que leva à sensação de inadequação muito frequente hoje nos consultórios dos sexólogos. Esta preocupação excessiva com a auto-satisfação e com o desempenho é típica de uma sociedade narcisista, desumana, auto-centrada onde mais é sinônimo de melhor.
Esta compulsão pela auto-satisfação é o único horizonte vislumbrado por ''adultescentes'' que não conseguem alcançar autonomia sendo, por isso, como marionetes, teleguiados pela mídia ou pela massa social que cada dia cria mais e mais estereótipos, classificações e padrões rígidos a serem seguidos.
No ringue, como no amor, um sempre busca colocar o outro na horizontal seguindo as regras, sem ''golpes baixos'' como mordidas na orelha, fofocas, chutes no saco ou traições. Não há como negar as semelhanças entre boxe e relacionamento conjugal mas o amor está muito mais para frescobol com direito a praia, sol e suco gelado. É uma transação onde os dois fazem uma agradável e prazerosa parceria para manter a bolinha e o desejo em alta. Eventualmente ela escapa e rola pela areia molhada por entre risos e gozos, volta de novo para o jogo do amor. Ninguém acerta sempre, o importante é a comunhão, usufruir dos fascinantes instantes de brilho e criatividade que só a verdadeira intimidade faz florescer. Na vida como no sexo, ''sabedoria é perceber que a vida é uma viagem cujo significado está no próprio percorrê-la e não no seu ponto de chegada'' (Alexandre Lowen).
O normal é haver desejo, equilíbrio, comunicação, criatividade. Um ambiente descontraído levemente erotizado, por vezes aquecido pelas brasas da paixão. O que é normal para um casal pode não ser para outro. Não se preocupem com a frequência do vizinho ele pode estar sem sexo algum ou pode estar copulando vorazmente com um leão, porém turbinado com uma super prótese ou injeções penianas.
Não se preocupem com o fim, usufruam gota a gota do sublime prazer da travessia. Afinal, orgasmo é ótimo, mas não é cartão ponto (que por sinal só é picotado um por vez) e depois você não vai nocautear o seu parceiro com um orgasmo certeiro. O seu troféu é dar e receber prazer.

CALVINO COUTINHO FERNANDES é terapeuta sexual e ginecologista em Londrina

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