Você conhece Itabirito, em Minas Gerais? Se não conhece (e mesmo que conheça), leia um artigo de Cláudio de Moura Castro, publicado na revista Veja (edição de 10 de setembro). Embora sendo uma cidade pequena (38 mil habitantes), sem nenhuma característica tecnológica, econômica ou cultural de grande destaque, a cidade tem indicadores de desenvolvimento humano (o famoso IDH) que sobressaem no contexto nacional. O articulista, com base em pesquisas de cientistas brasileiros e internacionais, demonstra que o que diferencia Itabirito da grande maioria de municípios do Brasil é algo que se convencionou chamar de capital social.
O que seria esse tipo de ''capital'', que não se guarda em banco nem debaixo do colchão e, mais importante ainda, não se pode importar dos centros financeiros mundiais, mesmo que o ''risco Brasil'' caia a zero?
Quando os acadêmicos falam em capital social estão se referindo às redes sociais que são construídas em cada comunidade ao longo de seu processo de formação e desenvolvimento. Essas redes passam a constituir um tecido que é tanto mais resistente aos problemas quanto mais espesso for, ou seja, se uma comunidade tem um elevado número de grupos, associações e sociedades funcionando, seu tecido social torna-se denso e viabiliza a solução da maior parte dos problemas com que se defronta.
É claro que esse tipo de ''capital'' não elimina totalmente a necessidade de se dispor de recursos financeiros, tecnológicos e culturais. Mas, com certeza, a abundância de capital social é um elemento indispensável para que os demais ativos disponíveis em uma comunidade sejam bem utilizados e venham a ter um maior impacto no crescimento sócio-econômico, na ampliação do nível de bem estar e na sustentabilidade a longo prazo do processo de desenvolvimento.
O que é importante sobre as características desse tipo de ''capital'' é que ele tem um custo econômico baixo e depende quase que exclusivamente do interesse e do comprometimento das pessoas para com a sua comunidade. Por outro lado, sendo vinculado aos valores e atitudes das pessoas, não há muito que se possa fazer, institucionalmente, para que o capital social de uma comunidade cresça. É um processo que começa e termina na própria sociedade e o Poder Público tem pouca capacidade de interferir diretamente no mesmo.
Embora reconhecendo essa limitação do poder público, há sempre um espaço para que ele atue na indução da criação de capital social, através de campanhas educativas sobre cidadania, direito e deveres dos cidadãos, começando no próprio sistema educacional formal, que, em grande parte, ainda é gerido pelo Estado. Além disso, outro papel importantíssimo dos diversos entes públicos em relação ao capital social é o reconhecimento da importância das organizações não governamentais (as ONGs ou integrantes do chamado Terceiro Setor) e o apoio às iniciativas por elas instituídas.
No caso de Londrina, o governo municipal está promovendo uma campanha visando a criação de ''mil ONGs'', o que demonstra uma saudável preocupação com a criação de capital social. Esse incentivo, no entanto, não pode esquecer o fato básico de que as organizações, como o nome indica, são necessariamente ''não governamentais'', ou seja, essas entidades não podem ser criadas ou tuteladas pelo poder público, embora possam ser por ele apoiadas e, nos termos da legislação vigente, fiscalizadas.
PAULO VARELA SENDIN é engenheiro agrônomo em Londrina

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