ESPAÇO ABERTO - Nelson Maculan
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sexta-feira, 07 de novembro de 2003
Hélio Duque 
Na quinta-feira, dia 30 de outubro no Rio, havia marcado um almoço no Copacabana Palace com os amigos Sebastião Nery e José Aparecido de Oliveira. Lembramos do ''italiano'' que morava na rua Domingos Ferreira, próximo do restaurante, e o Nery ligou para a sua casa para convidá-lo para o almoço. O telefone tocou diversas vezes e ninguém atendia. Estava hospitalizado.
Na última quarta-feira, dia 5 de novembro, recebemos a triste notícia: o ''italiano'' havia morrido. O destino não permitiu o nosso último encontro.
Londrina e o Paraná, nesse triste tempo de memória adormecida, têm uma dívida imensa na fecundação do seu desenvolvimento ao ''italiano''. A Assembléia Legislativa do Estado corrigiria parcialmente, essa omissão dos vários governos paranaenses, ao conceder o título de Cidadão do Paraná que seria recebido ao final do mês corrente. Infelizmente os desígnios de Deus não permitiram que aquela histórica sessão solene se concretizasse.
Morreu Nelson Maculan. Saudemos a sua memória. Partiu carregado de anos. Partiu deixando um exemplo de honradez e dignidade, orgulho maior da sua família e dos amigos que ficam.
Ortega y Gasset indagava o que é a verdadeira vida? E ele mesmo respondia que a vida é aquilo que fazemos e o que nos acontece. Não conheço designação melhor para o que foi a vida empreendedora de Nelson Maculan.
Paulista de nascimento, adolescência em Vitória, no Espírito Santo e maturidade realizadora plena em Londrina. Pioneiro na década de 40, ajudou a construir um padrão civilizatório histórico na formação nacional que é o Norte do Paraná. Nesse mundo novo e de desafios permanentes emerge na sua simplicidade espontânea o batismo de uma liderança incontestável.
Elege-se à Câmara Municipal, líder da cafeicultura é um dos articuladores da célebre Marcha da Produção, em 1959, que exigia uma política realista para a então fundamental riqueza do Estado e do Brasil. O saudoso Souza Naves o faz seu suplente na vitoriosa eleição para o Senado. Com a morte prematura de Souza Naves, Maculan assume a cadeira no Senado pelo PTB. Em 1960, lançado candidato ao governo do Paraná disputa com Ney Braga o Palácio Iguaçu. Numa eleição acirrada e equilibrada, perde por pouco mais de 20 mil votos.
Volta ao Senado e em 1962, licencia-se para assumir a presidência do IBC (Instituto Brasileiro do Café), em um tempo em que essa autarquia era a base fundamental da economia brasileira. Alarga as fronteiras de oferta do nosso café pelo mundo, implantando o entreposto de Trieste, na Itália, objetivando, com êxito, a conquista do mercado do Leste Europeu.
Com a vitória do golpe de Estado de 64, retorna ao Senado e em 1966 disputando a reeleição é derrotado por Ney Braga. Fixa residência no Rio de Janeiro e passa a ser um requisitado consultor de importantes exportadoras de café.
Em 1974, candidato pelo MDB à Câmara é eleito Deputado Federal e cumpre um mandato exemplar em defesa da agricultura nacional.
Lutador incansável, dotado de um vigor extraordinário, nunca abandonou o sonho de ver um Brasil desenvolvido e com justiça social. Era uma das poucas vozes que Leonel Brizola ouvia e acatava. Aos 87 anos nunca parou. Um exemplo para aqueles que se abatem diante da adversidade.
Se viver é achar-se no mundo, Nelson Maculan não só viveu mas achou-se com uma vida exemplar de realizações e uma incrível generosidade solidária. Herança maior que deixa para um mundo de sinal invertido, onde o ter é mais importante do que o ser.
Descanse em paz querido amigo, os sinos da saudade ''sempre dobrarão por ti''.
HÉLIO DUQUE é ex-deputado federal pelo Paraná


