ESPAÇO ABERTO - Naúsea eleitoral
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sexta-feira, 01 de outubro de 2004
Claudemir Lopes Bozzi 
''Gozo a luxúria única de não ter já esperanças políticas. As notícias sobre o que falam e fazem os políticos e partidos só me provocam náusea imensa''. Já faz alguns anos que li esta frase de Rubem Alves e, naquele tempo, me espantei. Passados alguns anos, releio e entendo. Na juventude pensava que a morte da esperança fosse coisa má. Agora, na maturidade da vida, eu a sinto como algo positivo. Basta alguns minutos de horário eleitoral, de propaganda de rua ou de uma conversa com algum fanático cabo eleitoral e a sensação de náusea se completa. Talvez seja do cerne da democracia formal eleitoral o processo de enauseamento!
Alguém poderá me censurar por pessimismo tardio. Mas o filósofo Albert Camus, no auge de seus 33 anos sentenciou: ''Cada vez que ouço um discurso político (...), há anos que me sinto apavorado por não ouvir nada que emita um som humano. São sempre as mesmas palavras, que dizem as mesmas mentiras. E, visto que os homens se conformam (...), vejo nisso a prova de que não dão a menor importância ao próprio governo e que jogam, essa é que é a verdade, com toda uma parte de sua vida e dos seus interesses chamados vitais''.
Eis as perdas de esperanças, sabem que os esforços para melhorar suas vidas pela democracia eleitoral formal são inúteis. Mas, para não dizerem que não falei de flores, digo de autor brasileiro, eis Guimarães Rosa: ''A política é desumana, dá ao homem o mesmo valor de uma vírgula numa conta. Não sou um homem político, justamente porque amo o homem. Deveríamos abolir a política. Políticos falam sempre de lógica, razão, realidade (...) e, ao mesmo tempo, praticam os atos mais irracionais que se possa imaginar. Talvez eu seja um político, mas desses que só jogam xadrez quando podem fazê-lo a favor do homem''.
Contrariamente à lógica do xadrez, a da política é a do poder e não a do bem comum. Por isso o ideal de ética desaparece do universo eleitoral e político! No jogo do poder reina os argumentos da força, da mentira e do poder econômico! Na verdade, a sanha desavergonhada pelo poder embrutece qualquer sinal, por mínimo que seja, de ética e de espírito crítico! E reina o conselho de Maquiavel ao príncipe: o importante não é ser justo, mas parecer sê-lo. Velhos inimigos de ontem, esposais de hoje (ACM e Lula!).
Por isso a sabedoria política não se encontra onde se encontra o poder político. Com Rubem Alves: ''Perdi a esperança na política partidária a fim de me encontrar com a esperança de um mundo melhor, que brota silenciosamente entre as pessoas alienadas do jogo da política oficial''. Diante da panacéia eleitoral com sua falácia de democracia formal liberal, faço coro com Camus: ''O que não perdôo a sociedade política contemporânea é que a tenha tornado uma máquina para desesperar os homens. Mas nunca deixarei de ser solidário com os homens que nela sofrem e, principalmente, com os que ela oprime''.
CLAUDEMIR LOPES BOZZI é filósofo e professor na Unopar em Londrina


