ESPAÇO ABERTO - Natal e pobreza: quem ri?
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2004
Tulio Barbosa 
Inúmeros leitores, neste instante, concordarão sem pestanejar a necessidade de eliminar definitivamente a pobreza. Muitos destes leitores consideram uma grande covardia as diferenças sociais e econômicas que aí estão. Concordam que a pobreza é a destruição de milhares de seres humanos, todavia apenas tentarão imaginar a miserabilidade dos outros, mas não atacarão e nem concordarão com as formas sérias e cientificamente provadas para findar a miséria.
Viva a miséria! Assim gritam os programas televisionados, uma vez que estes têm nos pobres através de seus quadros de transformações, princesas, príncipe e outros, uma forma canalha de obterem simultaneamente audiência e dinheiro. Aliás, o que move o mundo é o dinheiro e todos tomam-no como divindade, podemos até dizer: há dinheiro, há vida.
Sob os auspícios natalinos inspirados pela graça cristã, milhares de ''boas almas'' tecem campanhas para arrecadarem alimentos. E Daí? ''Vamos alimentar esses maltrapilhos papai?'' - pergunta uma linda garotinha. ''Não, já passou o Natal. Agora que eles arrumem emprego.'' - responde o pai cristão. Como escreveu Castro Alves: ''Senhor Deus dos desgraçados'', mas não há empregos.
O poeta Gregório de M. Guerra tinha uma filosofia simples de vida: a certeza do infinito amor de Deus. E nos seus poemas sempre escrevia que Deus é amor, e quanto mais ele pecasse, mais Deus o perdoaria, pois amar é perdoar e quanto mais ele pecasse mais Deus o perdoaria. Percebam, esta lógica é falsa, da mesma maneira que milhares de pessoas consideram os pobres simplesmente como vontade de Deus, como vagabundos, como qualquer coisa que retire do capitalismo a culpa.
Nos natais os cristãos dão comida aos pobres. Que lindo! A lógica do mundo atual está equivocada, pois a pobreza aumenta a cada dia e a comida do Natal não dura para sempre. Urge uma política ampla para erradicar a pobreza, através de uma ampla reforma urbana (a cidade para todos, o urbano enquanto função social), uma imensa reforma agrária (aumentando a empregabilidade no campo e subtraindo os preços dos alimentos), olhar cautelosamente para o mercado internacional e não seguir a cartilha neoliberal do FMI. Enfim, o Brasil precisa de autodeterminar-se enquanto nação soberana e criar auto-suficiência econômica, social, política, cultural, agrícola, industrial...
Ao contrário, em breve milhares de brasileiros se reunirão nas praças nos natais e cantarão o clássico Papai Noel da banda Garotos Podres: ''Papai Noel velho batuta/Rejeita os miseráveis/Presenteia os ricos/Cospe nos pobres...''. As reformas devem ter início no âmbito municipal, tendo prefeitos e vereadores construindo soluções para findar a miséria. E muitos dirão: ''Não há como, tudo depende dos governo estadual e federal''. Existem muitas formas para findar a miséria nos municípios, basta os prefeitos e vereadores terem vontade e um mínimo de inteligência e habilidade administrativa.
TULIO BARBOSA é professor de Geografia em Presidente Prudente (SP), mestrando pela Unesp e presidente da Associação de Geógrafos Brasileiros (SLPP)


