As pessoas costumam dizer que a melhor coisa do mundo são os amigos. Esta é uma cultura que a tradição veio passando, o que é muito salutar, mas não deixa de ser um culto à dependência e ao selecionamento. Assim tem sido e certamente ainda o será por bom tempo, até que se compreenda que compomos uma grande fraternidade.
Mas o objetivo deste escrito é dizer que, antes de tudo, temos de buscar em nós mesmos o melhor amigo; gostar primeiro de nós, que assim passamos a gostar mais dos outros; dar prioridade aos nossos gostos e aos nossos desejos, que assim entenderemos os desejos dos outros. Se nos amamos, os circunstantes também nos amarão. Podemos fazer concessões, mas sempre conscientes de que o eu é prevalecente.
Se vivemos nos criticando, mesmo que mentalmente, as pessoas que nos rodeiam também passarão a nos criticar. O amor por nós próprios tem que ser maior que o que dedicamos ao filho, à mãe, ao pai, irmão, parente, amigo. Nada a ver com ego, porque falamos de algo além desse campo.
A família, a escola, a igreja os três tradicionais pilares de formação humana sempre nos ensinaram a cultivar amigos e a escolhê-los bem, embora não tenham nos ensinado a cultuar todas as pessoas, e é certo que nunca recebemos lições sobre o gostar de nós próprios. Quando alcançamos o entendimento do que somos (não quem, mas o que), aí nos amaremos mais intensamente. E o que somos? Somos centelha de Deus, portanto deuses.
Os egoístas á(no sentido dos que vivem mergulhados no círculo do ego, o campo dos sentidos) se autodesprezam muito e imaginam-se insignificantes. A razão é não saírem dessa redoma, fazendo dali o seu mundo. Diminuir-se não é humildade mas auto-agressão. Quem se ama não se menospreza nunca, porque liberto do ego, que é a realidade ilusória. Quem se auto-reverencia, sereno e sem arrogância, sabe porque e, com toda certeza, não faz comparações entre ele e os demais. Porque sabe que cada um dos iguais que atingiu esse nível de entendimento também se ama muito e também se auto-homenageia.
Podemos tomar conta das pessoas que se tornam nossas dependentes, mas temos de cuidar antes de tudo de nós próprios. Se conversar com os amigos e revelar-lhes nossas confidências é bom, devemos dar prioridade ao amigo que está dentro de nós, e isto quer dizer o nosso Eu Maior que se contrapõe ao ego daí o zelo especial que devemos ter para conosco. Este amigo (a nossa realidade essencial), tudo sabe e nunca se afasta, nunca se omite, nunca falseia, nunca morre. Porque, de tudo o que somos, é o que afinal restará e resplandecerá triunfante.
Devemos nos compadecer da dor alheia e estar sempre prontos para a solidariedade, porém sem descuidar de nós próprios e nunca nos entregarmos totalmente, porque isto nos tira energia vital e nos enfraquece. Não temos que sofrer desgaste na doação e sim manter intacta a nossa integralidade, ou seremos nós que acabaremos pedindo socorro. Não podemos nos perder de vista.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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