Espaço Aberto - Não me matarás, de vergonha
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de fevereiro de 2015
Reginaldo José da Silva 
República presidencialista, integrante do G-20, portanto umas das maiores economias do mundo em desenvolvimento, vastos recursos naturais e uma das maiores biodiversidades do planeta, mais de 200 milhões de habitantes, dos quais a maioria da população é de baixa renda, intensa corrupção política. São muitas as semelhanças entre Brasil e Indonésia, e, houvesse, entre as citadas, a pena de morte, ainda assim não seria possível pelo conjunto apresentado definir a qual dos dois países as definições apresentadas se referem.
Distantes geograficamente, mas próximos por um conjunto nada agradável de características. A Indonésia foi colonizada pelos franceses, pela Companhia das Índias Orientais no século 17, o mesmo grupo que no Brasil aventurou-se na cana de açúcar. Conflitos, mortes e principalmente o modelo de colônia de exploração pelo qual passaram os asiáticos, reforça a ideia de que as falhas brasileiras não se devem ao fato de o Brasil ter sido colonizado por portugueses, mas à forma como o processo se desenvolveu. Comum a ambos, ainda, um golpe de Estado, apoiado pelos Estados Unidos, a pretexto de evitar o comunismo, marcado por uma ditadura agressiva, violenta, militarista e corrupta sim, corrupta e com foco na repressão e na opressão.
O rol que aproxima as duas nações encontrou recentemente a discussão da pena de morte. Aproximaram-se ainda mais devido a um brasileiro e 13,4 kg de cocaína. Do lado Atlântico do planeta a incoerência foi atribuída ao discurso da presidente Dilma em defesa do traficante, mas omissa em inúmeros casos mais graves por aqui. Esquecem-se de que igualmente incoerentes são esses que com a mesma velocidade com que louvaram a atitude do governo indonésio esqueceram-se dos 450 kg de cocaína apreendidos pela Polícia Federal, no helicóptero da família do senador Zezé Perrella. Neste caso, quem morreu foi o assunto. Afinal, no Brasil, bandido bom é bandido morto, mas depende do bandido. Mas os dois países se equivalem também nas incoerências. O "país modelo", por conta de uma pena de morte, liberou de suas prisões entre 2013 e 2014 nada menos que 300 terroristas, responsáveis por algumas milhares de mortes. Mais que isso, clamou respeito à sua soberania, mas pediu clemência ao governo da Arábia Saudita para uma indonésia condenada por roubo e homicídio.
De acordo com previsões da Agência Nacional de Entorpecentes daquele país, o consumo de drogas, por lá, deve aumentar 45% no ano de 2015. Uma clara evidência de que é preciso fazer mais do que executar pessoas, é fundamental executar planos efetivamente voltados para melhoria da qualidade de vida das pessoas. A previsão realça a posição de Dostoievsky, para quem a pena de morte não serve para diminuir os crimes de sangue.
Dados brasileiros: 350 mortes diárias relacionadas ao consumo de cigarros; mais de 50 mil ao ano, no trânsito; diariamente 20 crianças morrem por falta de saneamento no país; 70% dos homicídios se devem a armas de fogo, e atingem essencialmente negros e pobres; não bastasse, o suicídio leva outras 25 vidas a cada dia. Se considerarmos apenas a cidade de São Paulo, são 4 mil mortes por ano devido à poluição. Com população, história, colonização e devastação ambiental, semelhantes, os dois maiores emissores de gases estufa devido ao desmatamento Brasil e Indonésia - se equivalem em relação aos números dessas mortes silenciosas. Já no século 19 a interpretação de "A Origem das Espécies", de Charles Darwin, assegurava que na luta pela vida não era a força, mas sim o fato de ser mais apto o diferencial para sobrevivência. Fosse questão de força, dinossauros não seriam meros personagens em animações infantis ou peças de museus. Talvez, a pior das penas de morte seja aquela que ocorre de Norte a Sul do Brasil, a morte simbólica, lenta, a morte das ideias, a escravidão dos hábitos em especial aqueles meramente reproduzidos pela TV. Guilhotina para quê?
EGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo pós-graduado em Análise Ambiental e Policial Militar em Londrina


