No Brasil, todos os dias são dias de fortes emoções. Quando nada há para celebrar, celebramos a ausência do que celebrar, como assisti em várias capitais do Nordeste. Se não, explodimos de emoções contra o governo, contra as cleptocracias das empresas privadas e públicas (principalmente estas) e os jornais insuflam emoções até em mortos.
Uma informação que me surpreendeu, relendo Scientific American (January 2004) é que emoção ou afeto é um sistema de processamento de informação, similar, mas distinto de cognição. Com cognição entendemos e interpretamos o mundo, mas toma muito tempo e esforço. Emoção trabalha mais rapidamente em nós e seu papel é fazer julgamentos - isto é bom, aquele é ruim; este é seguro, aquele não é...
Realmente, pensamos diferentemente quando estamos ansiosos, tristes ou raivosos e quando estamos felizes e serenos. Ansiedade nos leva a focar em problemas e quando estamos felizes somos mais criativos, porém interrompíveis. Temos tempo para a criatividade, mas nos descuidamos da produtividade. Gozamos mais a vida, mesmo pobres.
Entendemos que os avanços da tecnologia e da ciência somente serão conquistas civilizatórias, se nos permitirem mais lazer sem perda de renda e do prazer de viver. Assim não sendo, não são avanços, são meras trocas em que o homem perde para a máquina.
Lamentavelmente, o sucesso do nosso estágio emergente racional ainda tem que ser fundado no emocional. Temos que ser interrompíveis em qualquer esforço que façamos. Temos que parecer felizes e criativos, apesar de que estamos atrás em vários aspectos socioeconômicos de uma emergente Coréia do Sul, do pequeno Japão e de uma grande Índia.
A exploração produtiva do cognitivo, de entender e intepretar o nosso mundo complexo, está chegando apenas esparsamente em nosso imenso litoral e parece estar ainda sufocado no Planalto Central. A felicidade per capita, não a renda, é ainda o que mais nos interessa.
O Estadão de 9 do corrente publica pesquisa do Ibope nos informando que ''só 23% dos brasileiros sabem calcular direito''. Da amostra de 2 mil pessoas de 15 a 64 anos, 2% não conseguem identificar os números; 29% entendem os números, mas não sabem fazer cálculos como adição e subtração; 46% conseguem fazer operações matemáticas simples, que exigem apenas um cálculo; e 23% conseguem resolver problemas numéricos.
O cognitivo que promove os avanços de uma nação moderna exige habilidades quantitativas de pelo menos dois terços do povo adulto. As habilidades verbais, apesar de importantes, não nos fazem avançar no quadro das nações emergentes. Levam-nos ao Planalto Central, mas nos deixam enroscados no Sertão.
Estamos mais próximos de sermos robôs de grandes potências que sermos inteligentes independentes. Também por isso somos explorados pelos políticos institucionais que elegemos. De certa forma, eles nos entendem robôs de suas vontades. Pouco importa o nível de moralidade que todos desejamos, importa sim, o nível de aceitação do nosso povo que insiste em viver no emocional nacional, e ser feliz na miséria.

ALEXANDRE DO ESPÍRITO SANTO é professor PhD em metodologia de pesquisa científica em Londrina

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