ESPAÇO ABERTO - Na escola: é proibido proibir!


Sueli Aparecida Lopes Braga

Somente quem convive e atua no seio escolar consegue dimensionar as dificuldades, fragilidades e conflitos no cotidiano. Nesse ambiente, interagem pessoas adultas formadas em universidades, crianças e adolescentes, não raro, frágeis emocionalmente, solitários, imaturos e mimados que frequentam a escola por absoluta obrigação legal.
A escola tem sido palco de dilemas morais, pois numa sociedade que supervaloriza a aparência, a beleza e o individualismo, poucos na família educam para o respeito às leis, às normas, à necessidade do cumprimento de convenções sociais, para a solidariedade e o respeito ao próximo.
Assim, medidas simples, tomadas na escola, como mudança de turma, de turno, de lugar na sala de aula, exigência do respeito aos horários, uso de uniforme são polemizadas, transgredidas por famílias e viram motivos de agressões verbais, injúrias, calúnias e difamações nas redes sociais, muitas vezes com o conhecimento dos pais.
Qual será o futuro do ofício de professor que não é respeitado por governantes e autoridades jurídicas? "Não estamos aqui para agradar professor ou diretora", disse-nos uma autoridade. Todavia, sabemos a quem eles agradam: aos adolescentes e jovens e seus pais omissos e negligentes! Hoje, na escola, é proibido proibir! Pais e alunos só aceitam sim como resposta. Pais gritam, ofendem diretores por telefone, apenas por discordarem de normas.
Em todas as ocasiões em que elaboramos processos, registros de ocorrências e os encaminhamos para promotorias, conselhos e ouvidorias de setores educacionais, recebemos a indiferença como resposta. O silêncio como sugestão. E temos nos curvado. Nós, na escola, apenas recebemos ofícios e mandados: matricule-se! Tolerem, aceitem, acolham e protejam as "crianças". Ninguém respeita a escola e seus educadores. Quem os protegerá? Teremos que ir às barras dos tribunais para garantir respeito?
As pessoas chegam à escola mandando, gritando, desrespeitando, ordenando e nos humilhando! Os professores estão doentes e sozinhos!
A escola representa um laboratório da sociedade humana: com todas as suas diversidades culturais. E está em crise! Não há necessidade de mudanças somente no currículo, na sua estrutura, na sua missão de ensinar para a vida. A escola tem necessidade urgente de ser acolhida pela sociedade que dela se origina e para a qual ela existe. Ela está deixando de realizar sua função, pois tornou-se refém de atos de desrespeitos diários. Os alunos (a maioria) não querem estudar. O estudante não quer cumprir tarefas, horários, pesquisas. O aluno não quer aprender. A maioria julga ter acesso à informação e ao conhecimento sem precisar da escola, tampouco aceitam ser contrariados. Para qualquer desentendimento ou conflito, ameaçam com processos judiciais. O aluno que lhe é chamada a atenção por um professor, por estar conversando em sala, muitas vezes ao celular, na hora da explicação, alega ser perseguido e sofrer bullying pelo professor. A que ponto chegamos!
Professores, diretores e funcionários pedem socorro para trabalhar, para ensinar. Não bastam apenas tecnologias, clamamos por respeito e dignidade. Queremos a autonomia a que temos direito, para exercemos nossa função profissional! Nossa palavra tem que ser respeitada! Será que tudo no país tem que ir para o STF?
Socorro, caros governantes, parlamentares, sindicatos, conselhos educacionais, ministério educacional, imprensa, igrejas, varas civis, promotorias, fóruns, redes sociais, empresas, universidades, tribunais de Justiça, famílias e Supremo!
A escola está em crise e os presídios estão superlotados, em rebelião... Assim, a cada atitude de impunidade se gera uma maior bandidagem! Pais e alunos e toda a sociedade colherão frutos futuros das irresponsabilidades plantadas agora. Assim, as indisciplinas de hoje, os atos infracionais de amanhã poderão significar crimes daqui a alguns anos.

SUELI APARECIDA LOPES BRAGA
é professora de História e diretora de escola pública de Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res.
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­[email protected]­lha­de­lon­dri­na.com.br


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