ESPAÇO ABERTO - Muros invisíveis
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de outubro de 2003
Sandro Heleno Morais Zarpelão 
No dia 3 de outubro de 2000, a Alemanha, seus líderes como Gerard Schoroeder (atual primeiro-ministro alemão) e seu povo comemoraram os dez anos da reunificação do país timidamente. Qual a razão disso? Será que a Alemanha continua dividida?
Em 1990, sob o calor dos festejos pela reunificação, Helmut Kohl, então primeiro-ministro alemão, afirmou: ''Serão necessários cinco anos para que o Leste se transforme em uma paisagem florida''. Ledo engano do ''chanceler da reunificação alemã''. O mencionado país, para seu desagrado, mesmo com a queda do muro de Berlim e a reunificação, ainda se apresenta profundamente dividido pelos chamados ''muro econômico'', ''muro histórico'' e ''muro psicológico''.
Primeiramente, apesar do volume impressionante de marcos (moeda alemã) investidos pelo Oeste na parte Leste do país para modernizar e colocar a ex-RDA (República Democrática Alemã), no mesmo nível sócio-econômico-industrial da ex-RFA (República Federal Alemã), o ''muro econômico'' continua separando o gigante germânico. É que o Ocidente alemão continua muito mais adiantado em termos tecnológicos, econômicos, sociais e industriais do que o seu lado Oriental.
Ademais, o crescimento do PIB alemão pós-reunificação foi pequeno, embora a ex-RFA tenha feito e ainda faça vultosos sacrifícios econômicos em prol da antiga Alemanha Oriental.
O ''muro histórico'' é o legado deixado por 45 anos de divisão de uma nação, que no Oeste era a Alemanha Ocidental capitalista com capital em Bonn e no Leste era a Alemanha Oriental, socialista e cuja capital era Berlim Oriental. Portanto, rivais existindo sobre um povo de passado, língua e cultura comum dividido pela 2 Guerra e a Guerra Fria.
É claro que não se pode e consegue apagar 45 anos de história da memória de várias gerações, em ambos os lados - cujos caminhos seguidos foram tão opostos -, ao colocá-las novamente sobre a estrada de uma Alemanha única. Apesar de serem todos alemães, antes são pessoas, seres humanos e, como tais, levam muito tempo para que sua antiga visão de mundo se modifique na direção do erigir de uma nova mentalidade.
Afinal os alemães da ex-RFA viveram sob um capitalismo social-democrata, em que o manto protetor do Estado mantinha uma série de benefícios sociais, e sob uma democracia republicana parlamentarista. Já os alemães da ex-RDA eram regidos por um Estado socialista e ditatorial, fechado e sem liberdade política e de imprensa, que atendesse a todas as necessidades básicas da população.
Contudo, o maior obstáculo para o êxito completo da reunificação é o chamado ''muro psicológico'', presente na mente de cada alemão, que são os conceitos de vida, o olhar sobre o mundo e a maneira como foi ensinado a viver tão diferente nas antigas Alemanhas Ocidental e Oriental. Simplesmente isso tem levado a uma situação de desconfianças, hostilidades e preconceitos mútuos numa escalada preocupante.
Ocorre que as concepções, pensamentos e percepção da realidade estão e serão vagarosamente modificados nas gerações que viveram a divisão alemã. Entretanto, caberá às novas gerações pós-reunificação, a mudança na mentalidade e a resolução dos citados ''muros invisíveis''.
Por fim, tal transformação só poderá ser alcançada com uma atuação firme do governo alemão juntamente com a sua população ocidental e oriental, através principalmente da educação de base, imprensa e das universidades germânicas, para que possam criar cidadãos verdadeiramente alemães, sem distinção de procedência, seja ela da parte Leste ou Oeste da Alemanha.
SANDRO HELENO MORAIS ZARPELÃO é bacharel em Direito e professor de História e Geografia em Londrina


