ESPAÇO ABERTO - Mudaram as estações, é primavera?
O momento atual brasileiro lembra os anos 1960, povo nas ruas e muitas reivindicações, mas abriga uma nada sutil diferença: o ideal dos evolvidos. Embora justos, os protestos precisam alcançar questões que afetem diretamente a qualidade de vida da sociedade. É essencial que as manifestações conduzam a uma reflexão interna sobre a mudança de valores.
Na década de 1960 era comum responder que da vida se esperava um país melhor, saúde e segurança melhores. Hoje a criança espera da vida um tênis, um ipad, um tablet, o jovem quer o carro, o adulto quer outro carro, a casa, deseja que sua família seja bem sucedida. Nenhum mal nisso, não fosse o fato de o sucesso almejado ser sinônimo de sucesso meramente econômico. É o que fica nas entrelinhas quando se diz que "alguém se deu bem na vida".
É importante que os protestos continuem, preferencialmente sem violência.
Defender que "violência é o que fazem com a saúde, com a segurança e com os desvios de verbas no país" é tão correto quanto querer justificar violência com violência. É legitimar a fala daquele que aponta uma arma para a cabeça do trabalhador e depois se faz de vítima dizendo que não teve opção. Se a violência é para reivindicar, é sim uma forma de fazer política, mas a isso se chama terrorismo. Em relação à corrupção somos milhões de brasileiros que precisamos mudar comportamentos. Apenas a título de exemplo não são poucos os que fraudam declaração de IR. E, se você conhece alguém que se justifica dizendo que o imposto é um roubo essa pessoa precisa voltar ao começo desse parágrafo.
Outra questão a ser mudada é o comportamento de muito reclamar dos governos e da sociedade. Na verdade, a forma como isso tem sido realizado. Aponta-se o dedo e reclama-se como se fosse um faraó no alto de seu trono, sentindo-se a representação de Deus, ou o próprio Deus, ou como se fosse o súdito no meio da multidão apontando erros. Ambos se comportando como se não fizessem parte um do outro (governo e sociedade). A mudança de valores precisa caminhar para maior solidariedade.
Quem vai às ruas precisa saber que não se pode esperar um representante que resolva todas as nossas carências sozinho. Assim, em relação a uma grave deficiência do país, a desigualdade social, quem está disposto a repartir sua fatia no bolo? O que mais se ouve é que a culpa é do governo, que se eu ganho R$ 1 mil, R$ 10 mil ou R$ 50 mil, fiz por merecer, trabalho, estudei para isso e qualquer um pode também. Engano, para não dizer mentira. Não é possível que todos sejam ricos no planeta. Aliás, o planeta não comporta sequer que cada habitante maior de 18 anos possua um carro. O planeta não possui recursos para tanto.
Não se pode mensurar um dos mais importantes bens do ser humano, a possibilidade de sonhar com melhor qualidade de vida, em números e cifras. Ou se mudam os valores ou nada mudará. Mas, isso não significa que os protestos não devam ocorrer. Entretanto, é preciso saber que ou mudamos os valores ou ouviremos em um futuro próximo a trilha sonora já cantada por outras gerações: "Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos... como os nossos pais...". Ou para os mais jovens: "Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações...".
REGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo pós-graduado em Análise Ambiental e Policial Militar em Londrina





